Nota intempestiva, ato da Greve Geral, 28/04

​_

O que primeiro me queimou os olhos talvez tenha sido quão alto subiu a labareda de uma cesura. Um traço entre os que brincavam com fogo e os que desejavam água, mais água, as águas de um afogamento, que lavasse os mascarados de sua anormalidade. “A luta de verdade é aqui. Vocês tem que se juntar à nós”, ouvia-se do palco enquanto a praça ainda não se convertera totalmente num palco de guerra. Percebi então quão ilegíveis eram os signos da velocidade. Cada bomba que explodia era o grito de um passado que nos fazia fugir em direção a um futuro cada vez pior. Os olhos agora queimavam com o gás lacrimogênio. As explosões insistiam em lembrar minha incapacidade de alcançar o presente. Quiçá era possível enxergar uma saída além daquela a que nos empurravam. Logo, não havia possível. O possível não era mais que uma única realidade já dada que nos forçavam a viver e correr para ela como ratos para a ratoeira. Mas as bombas, o passo lento do policial levantando a arma e apontando em nossa direção, três helicópteros iluminando nossas cabeças e ofuscando ainda mais o brilho de qualquer estrela, que assim como o estrondo das bombas também era uma insistência do passado, tudo isso me fazia perceber que meu corpo era uma dobradiça entre a lentidão do meu pensamento e as velocidades intensas da realidade. O que eu conseguisse fazer ali não seria em termos de inteligência. O meu aparelho sensório-motor era lento e todo recorte que fazia para pensar uma ação já não me servia mais. Eu era forçado a pensar um pensamento que não era meu e que nenhuma voz sussurrou ao vento. Entre todos os estímulos a que era exposto meu corpo – não se tratando de teoremas com respostas dadas, mas de problemas a serem colocados e avaliados quanto a essa colocação – a escolha que fiz foi fugir para dar mais condições corporais, portanto, temporais de complexificar melhor o intervalo entre os estímulos e as possíveis respostas. Ou seja, pensar e pensar como um baterista de jazz tirado da plateia de forma inusitada para tocar com uma banda desconhecida uma música que nunca ouviu; pensar por tendências e se relacionar com outras frequências.

O aceleracionismo interpelado pelo corpo

Por Franco Berardi (Bifo), em e-flux, junho de 2013 | Trad. Renan Porto, UniNômade

 

A aceleração é uma condição para o colapso final do poder?

Aceleração é a característica essencial do crescimento capitalista: aumentar a produtividade implica uma intensificação no ritmo de produção e exploração. A hipótese aceleracionista, mesmo assim, aponta as implicações contraditórias do processo de intensificação, enfatizando em particular a instabilidade que a aceleração traz ao sistema capitalista. Contra essa hipótese, porém, minha resposta para a questão se a aceleração seria capaz de produzir um colapso final do poder é bem simples: não. Não, porque o poder do capital não está baseado na estabilidade. Naomi Klein explicou a habilidade do capitalismo em lucrar na catástrofe. Além disso, o poder capitalista, na era da complexidade, não está baseado em decisões lentas, racionais e conscientes, mas em automatismos incorporados que não se movem na velocidade do cérebro humano. Pelo contrário, se movem na velocidade do próprio processo catastrófico.

Mas a hipótese aceleracionista pode ser lida de um ângulo diferente e mais interessante, como uma versão particular da imanência radical na dimensão filosófica do pensamento comunista spinozano contemporâneo.

Posso fazer referência aos livros de Hardt e Negri. Neles, a transição além da esfera da dominação capitalista, é concebida em termos de um completo desdobramento das tendências implícitas às presentes formas de produção e vida. A aceleração, nesse sentido, pode ser vista como uma realização total dessas tendências que levam ao desdobramento das potências inerentes contidas na presente forma do capitalismo.

Em Império, Hardt e Negri rejeitam a enganosa pretensão de uma regressão anti-globalização, um regresso à soberania nacional, para apontar a analogia entre o império global das políticas pós-nacionais e a potência da internet, o que pode ser visto como a realização da potência do intelecto geral de massa [General Intellect, em Marx].

Nós também podemos encontrar essa rejeição de qualquer toda nostalgia em relação à lentidão do passado pré-capitalista no trabalho teórico de Deleuze e Guattari. No Anti-Édipo, a rejeição assume a perspectiva esquizoide: o esquizo é o ritmo acelerado do inconsciente. Esquizofrenia também é questão de velocidade: a velocidade do universo que nos cerca em relação à velocidade da interpretação mental desse mesmo universo. Porém, não existe normalidade mental que seja capaz de ser restaurada e, no Anti-Édipo, a esquizofrenia é tanto a metáfora do capitalismo quanto metodologia da ação revolucionária:

Mas haverá alguma via revolucionária?  — Retirar-se do mercado mundial, como Samir Amin aconselha aos países do Terceiro Mundo, numa curiosa renovação da “solução econômica” fascista? Ou ir no sentido contrário, isto é, ir ainda mais longe no movimento do mercado, da descodificação e da desterritorialização? Pois talvez os fluxos ainda não estejam suficientemente desterritorializados e suficientemente descodificados, do ponto de vista de uma teoria e uma prática dos fluxos com alto teor esquizofrênico. Não retirar-se do processo, mas ir mais longe, “acelerar o processo”, como dizia Nietzsche: na verdade, a esse respeito, nós ainda não vimos nada.

Um slogan popular de 68 dizia: “Cours camarade, le vieux monde est derrière toi! — Corra camarada, o velho mundo está atrás de você!” Mas a evolução do pensamento de Deleuze e Guattari mostra um deslocamento desse último ponto de vista: no capítulo final de O Que é Filosofia?, um livro que eles escreveram vinte anos depois do Anti-Édipo, nós lemos o seguinte:

Nós precisamos apenas de uma pequena ordem para nos proteger do caos. Nada é mais angustiante que um pensamento que escapa a si mesmo, que ideias que voam fora, que desaparecem mal formadas, já corroídas por um esquecimento ou precipitando em ordens que nós não dominamos.

O que aconteceu entre os dois livros? É que os autores envelheceram, os seus corpos enfraqueceram e os seus cérebros se tornaram mais lentos? Talvez, mas não é aí que está a resposta. A resposta está na passagem de 1972 a 1992, as duas décadas que separam a publicação do Anti-Édipo do publicação de O Que é Filosofia?. Durante esse período, a globalização econômica e a revolução infotecnológica intensificaram os efeitos da aceleração no corpo desejante.

O capítulo final de O Que é Filosofia? diz respeito à relação entre caos e cérebro, e esse é o melhor ponto de vista para entender os efeitos da aceleração maquínica na subjetividade social.

A implicação recíproca de desejo e desenvolvimento capitalista pode ser propriamente entendida através do conceito de desterritorialização esquiza. Mas quando se trata do processo de recomposição de subjetividade e formação de solidariedade social, aceleração implica a submissão do inconsciente à máquina globalizada. Se nós investigarmos a aceleração do ponto de vista da sensibilidade e do corpo desejante, nós veremos que caos é a percepção dolorosa da velocidade, e aceleração é o fator caótico que leva ao espasmo de que Guattari fala em Caosmose.

Aceleração é uma das características da subjugação capitalista. O inconsciente é submetido ao ritmo sempre crescente da infosfera, e essa forma de subsunção é dolorosa ela gera pânico antes de finalmente destruir qualquer possibilidade de subjetivação autônoma.

Imanência/possibilidade

A visão dialética (escatológica) do comunismo como a realização de uma forma superior de sociedade após a abolição do capitalismo é uma tradução política totalitária da utopia hegeliana do Aufhebung.

Uma crítica materialista do capitalismo está baseada na noção de que não há dimensão transcendente, e que o processo histórico nada tem a ver com a implementação de um Ideal. As possibilidades do futuro estão contidas na presente composição da sociedade. A possibilidade de uma nova forma social estão incorporadas nas relações sociais, a potência técnica, e as formas culturais que o capitalismo desenvolveu. Não há fora.

Nós devemos chamar essa concepção opondo-se à visão idealista da dialética hegeliana, que foi adotada pela ideologia marxista-leninista “imanentismo”. Ela marca a diferença entre, de um lado, a marca pós-hegeliana do Pensamento Crítico que floresceu no Operaísmo Italiano nos anos 60 e 70, e por outro lado, o pós-estruturalismo francês.

Não surpreendentemente, esse tipo de materialismo radical vem com uma celebração especial de Spinoza. Tanto Deleuze quanto Negri, na verdade, enfatizaram a rejeição de Spinoza à transcendentalidade: Deus está aqui, Deus está em todo lugar, Deus é a Natureza. Nós só precisamos ver sua presença e agir de uma forma que permita que sua potência infinita emerja.

O pensamento materialista radical que iluminou os passos do movimento autonomista nas últimas décadas do século vinte é essencialmente a afirmação da força imanente contida na presente composição social, que precisa ser desembaraçada para desenvolver a potencialidade do intelecto geral além dos limites do capitalismo. Essa força não está guardada na mente de um Deus distinto nem nas ideias de filósofos. Ela está guardada dentro das presentes formas de produção social. Nenhuma força externa ou projeto externo podem impulsionar o processo de transformação que leva à novas formas de organização social, porque não há exterioridade. O conflito e cooperação permanentes entre trabalho e capital estão na esfera onde o processo de desenvolvimento acontece. Esse é o ponto comum no rizoma Deleuze-Guattariano e no spinozismo multitudinário de Hardt e Negri.

Não surpreendentemente, as referências ao “Fragmento sobre as Máquinas” [nos Grundrisse] de Marx é crucial desse ponto de vista. Naquele texto, Marx afirma a possibilidade de que o comunismo está contido nas dobras do presente capitalista, como uma tendência incorporada no desenvolvimento tecnológica da atual organização de trabalho e conhecimento. Tudo está aqui: a potência do intelecto geral, a constante intensificação da produtividade, a tendência em direção à emancipação do tempo de trabalho.

A tendência implícita na organização tecnológica do capitalismo leva a uma nova concatenação de conhecimento e máquinas. Essa concepção imanente de comunismo tem algo a ver com a hipótese aceleracionista, mas o risco filosófico que eu vejo em tal postura imanentista consiste em confundir o desenvolvimento da potencialidade embutida na presente composição do trabalho e tecnologia por uma necessidade.

A hipótese aceleracionista

A hipótese aceleracionista está baseada em dois pontos principais: o primeiro é a suposição de que o ciclo de produção acelerada desestabiliza o capitalismo; o segundo é a suposição de que as potencialidades contidas na forma capitalista irão necessariamente se desenvolver por si mesmas.

A primeira suposição é desmentida pela experiência de nosso tempo: capitalismo é resiliente porque não precisa de governo racional, apenas governo automático, e porque não tem corpo desejante, sendo um sistema abstrato de automatismos. Governança é exatamente isso: a relocação de governo racional com a mera concatenação de automatismos tecnolinguísticos. Além disso, a aceleração está destruindo a subjetividade social, que é baseada no ritmo do desejo corporal, que não pode ser acelerada além do ponto do espasmo.

A segunda suposição subestima totalmente os obstáculos e limitações que impedem e pervertem o processo de subjetivação. A imanência da forma liberatória (a imanência do comunismo se você quiser ou a imanência do desenvolvimento autônomo do intelecto geral) implica a possibilidade de desdobramento, mas não implica a necessidade disso. Longe de ser uma metodologia de liberação, rizomas devem ser vistos como uma metodologia de desterritorialização permanente do capitalismo financeiro global. A potência do intelecto geral incorporado na produção em rede é subjugado ao poder da matriz financeira.

A teoria rizomática é uma metodologia para a descrição da desterritorialização capitalista e uma tentativa de redefinir a base da subjetivação desterritorializada. Mas não é (nem pode ser) uma teoria da autonomia. Em muitos pontos de seu trabalho, Hardt e Negri parecem se equivocar entre os dois: atualmente eles promovem a expectativa de que a potência social do comum o intelecto geral está intrinsecamente ordenado para se desdobrar totalmente, e o capitalismo está intrinsecamente ordenado para culminar em comunismo. Mas eles não consideram a possibilidade de uma interrupção no processo de desenvolvimento, de um emaranhamento bloqueando o possível.

Seu materialismo radical implica a natureza imanente da possibilidade, mas essa imanência da possibilidade não é igual a uma necessidade lógica. Nem implica o desenvolvimento imparável da riqueza implícita no presente. Essa possibilidade, de fato, pode ser impedida e desviada pelas formas culturais e psicológicas da existência subjetiva.

A postura aceleracionista, em minha opinião, é uma extrema manifestação da concepção imanentista. Paradoxalmente, também parece ser uma interpretação particular da afirmação baudrillardiana de que “a única estratégia agora é a estratégia catastrófica”. O trem do hipercapitalismo não pode ser parado, está indo mais rápido e mais rápido, e nós não podemos correr no mesmo ritmo. A única estratégia, entretanto, está baseada na expectativa de que o trem irá bater em álbum ponto e a trajetória capitalista irá levar à subversão de suas próprias dinâmicas internas. Essa é uma proposição interessante para considerar, mas é em última análise falsa, porque o processo de subjetivação autônoma é prejudicado pela aceleração caótica e a subjetividade social é capturada e subjugada pela governança capitalista, que é um sistema de mecanismos automáticos correndo numa velocidade estonteante.

 

Franco Berardi, aka “Bifo”, fundador da famosa “Rádio Alice” em Bolonha e uma figura importante no movimento autonomista italiano, é um escritor, teórico de mídias e midiativista. Atualmente ele ensina História Social da Mídia na Accademia di Brera, Milão. Seu último livro intitulado After the Future foi publicado pela AKpress.

A sordidez do conteúdo desses dias maquinais

Introdução aos poemas publicados na R. Nott Magazine

Alugar o corpo para um poema. Pagar o aluguel do próprio corpo com um poema. O poema como um outro regime corporal. Um outro corpo. Não um outro ‘eu’, mas um outro. Escrever poemas como se arranca costelas para germinar o pecado no mundo. Não o pecado, mas a possibilidade de conhecer o inviolável e possibilitar mil outras experiências. Os riscos da novidade ou uma monotonia eterna. O estrago feito pelo poema me tirou de um paraíso, paradeiro, paralisia. Não havia mais mundo, mas outros mundos se recompondo e se destruindo a todo momento. Se eu tivesse me rendido àquela alegria original da brisa suave de um poema, nunca teria escrito mais do que marcas de morte fantasiada de vida. Os poemas produzem oxigênio e é possível respirar com eles. É possível mastigá-los. É possível responder as acusações com poemas e assim não respondê-las. “Meu corpo”, Artaud, “meu corpo”, a questão que se coloca, “no meu corpo não se toca nunca”, para acabar com o julgamento de Deus. E é preciso destruir-se como ‘eu’ para realmente encontrar a solidão. A possibilidade. A possibilidade. A possibilidade. Os possíveis. Os possíveis. Os pus os pus os pus & foi isso a poesia. Não foi nunca. Nunca houve. Eu escrevi trezentos poemas. Eu apaguei muitos. Eu apaguei. Eu apaguei eu e e e à cada poema. Escrevi esse texto em torno de outubro de 2015: O texto do fim do texto: A escrita diante do espelho. A escrita contra si. Um perspectivismo e um multinaturalismo de si. São os mundos que são outros e não as formas de significa-los, como na metafísica canibal de Eduardo Viveiros de Castro. Foi naquele ano foi o ano que li quase tudo de Waly Salomão ouvindo Jards Macalé. Foi o ano que conheci o Pércio e conhecer o Pércio foi como ter um encontro com Cristo. A poesia tirou a religião de mim para que eu pudesse encontrar a fé. Foi o ano que fiz minhas primeiras aventuras no Rio de Janeiro. Agora eu moro no Rio de Janeiro e parece que This must be the place: home is where i want to be. Em 2015 eu ainda estava em Uberaba. Não suportava mais a faculdade e só queria terminar logo aquilo e vazar. Cada poema que eu escrevia era uma forma de dar essa vazão. Em 2015 eu desisti de publicar um livro e apaguei mais de 80% de tudo que havia escrito. Foi com o Pércio que conheci Artaud, Lautreamont, Herberto Helder. Citação: Poemacto IV, de Herberto Helder. Eu já era apaixonado por Fernando Pessoa. O poema ‘Tabacaria’ do Álvaro de Campos foi um dos maiores rasgos de 2013. Uma outra vida começou ali & era escabroso. Não houve coisa melhor do que se permitir algumas doses de caos & foi horrível & foi maravilhoso. Em 2015 eu conheci o Nícollas Ranieri. O Nícollas foi uma escola sem paredes. Não havia quadro negro. Por mais que fosse negra a nuvem que já cobria o céu. Parecia que eu só tinha a poesia contra o mundo, mas tive o Nícollas também. E aqueles terzinhos quando aconteciam me permitiam continuar quebrando mato. Dentre os rasgos de junho de 2013, eu já lia os textos do Bruno Cava e foi também em 2015 que o conheci na minha primeira viagem ao Rio. A poesia sempre foi um exercício de exploração nas bordas do pensamento. A dobra. Cadê a dobra? Caía-se em outro lugar. Na minha primeira semana morando no Rio fui nas primeiras aulas dos cursos do Bruno sobre os Mil Platôs de Deleuze e Guattari e sobre Henri Bergson e Deleuze. Eu consegui respirar ali. Era possível dar risada. Eu odeio o fato de que a edição brasileira dos Mil Platôs é dividida em 5 volumes. No volume 2 li sobre as máquinas de enunciação que provocam as transformações incorpóreas das coisas do mundo. Não era sobre o mundo que se escrevia. A poesia cria seus outros mundos deste mundo. Se é que se pode falar de “este”. Se é que se pode falar. A poesia foi então a possibilidade de continuar falando e de poder dizer algo e acreditar que algo realmente estava sendo dito; de que havia um dizer que era já um dito. Mil ainda é um número muito pequeno. Eu quero poder pensar números tão grandes quanto pensou Srinivasa Ramanujan. Os cálculos dele são usados para analisar o comportamento dos buracos negros. A poesia produz buracos negros. Especula possíveis conexões com outros espaços-tempos. “Poesia: procura de um agora e um aqui”, Octavio Paz, O arco e a lira. É aqui e agora que eu posso estar em outro tempo e em outro lugar. Foi abismante quando soube que Pasolini era realista. Não sabia que a realidade podia tanto. A poesia como prática de tensionar os limites. O limite a lide do possível. Em 2016, quando tantos mundos acabaram para tanta gente, inclusive para mim, aprendi a acreditar de novo. E é preciso acreditar nas coisas para vivê-las. Neste sentido, o milagre é possível. Me interessam agora os textos que conseguem multiplicar os pães e transformar água em vinho. Tornar a vida possível. Resistir contra os tribunais da má consciência e suas crateras de ressentimento.

A escrita diante do espelho

escrever como suicídio em potência, virtual e inatual, do sujeito petulante. quem no fundo no fundo pretende ser lido 2 mil anos depois. já sem mundo nem leitores nem gente também estúpida. se um texto sobrevive milênios é porque respondeu tão bem ao seu tempo que passou a ser um componente da história. “escrevo para apagar meu nome”, Bataille. neste momento escrevo senão para que minha respiração volte ao normal. fugido duma cabine de biblioteca onde meus pensamentos tumultuavam. milhares de ratos tentando fugir por um cano onde só passava um por vez. mordiam reciprocamente suas caldas, nucas e orelhas e a única coisa que passava era o sangue rico em leptospirose. eu era cada rato e o sangue e a bactéria. leptospira interrogansa. a escrita zerada em Artaud: pra que, por que, como, o que escrever quando toda escrita é porcaria. numa tarde de sábado abro a porta e me deparo com uma andorinha que pendulava entre a vidraça e um grande espelho na saída do meu quarto. sem nenhum acanho ou temor metia a cara no espelho tentando lançar seu corpo para outra realidade. percebeu que não passava de uma repetição e fugiu pelo corredor. lembrei do meu gato quando filhote que de frente pro espelho atacava sua imagem refletida. escrever como destruição de si. encarar-se como outro e tentar feri-lo. adentrar a mata à noite sem lanterna e caçar cada identidade e espancá-la. dormir sobre raízes tendo uma pedra como travesseiro. quando o primeiro raio de luz secar a baba no pescoço, buscar os restos e vesti-los como uma nova pele. escrever inescrupulosamente como experimentação de si. santificar a escrita. pois para isso servem os santos: denunciar sutilmente as consciências tranquilas do seu rebanho para quem quer devorá-lo.

(10/2015)

Monstros do Niilismo: Nick Land

Em 8/2, ocorreu a segunda edição Monstros do niilismo, a partir do pensamento do filósofo inglês Nick Land. Uriel Fiori palestrou sobre Land com foco nos dois livros publicados pelo autor, seguido de debate. Abaixo, Bruno Cava introduz o professor de Warwick e eu faço um comentário crítico da palestra.

Remix cyberdark

Nick Land (1962) é uma figura única entre únicos. Misturando filosofia, cibernética, euforia gótica pelo abstrato e ficção cataclísmica, o professor de Warwick catalisou ao seu redor um coletivo de aceleracionistas, o CCRU (Unidade de Pesquisa de Cultura Cyberpunk), formado em 1995, que exalou uma aura de vanguarda ontológica e atrai espíritos dissidentes sui generis até hoje, por exemplo, em meio aos neomaterialistas do realismo especulativo. Com títulos indefectíveis para os seus livros, como Sede de aniquilação: Georges Bataille e niilismo virulento (1992) ou Númenos com presas (coletânea publicada em 2011), Land retoma conceitos de Deleuze e Guattari, como a desterritorialização e aqueles derivados da virada maquínica, para propor um aceleracionismo fundamentalista estritamente construído sobre a linha dos anjos exterminadores do niilismo ocidental, como Nietzsche, Bataille e o próprio trecho aceleracionista do Anti-Édipo (D&G, 1972). Isso, contrasta, sem dúvida, com toda a fauna de deleuzianos cantores de devires, fluxos e linhas de fuga por todo lado (1). Na apresentação de quarta, em chave emotiva de nostalgie de la boue, Uriel introduziu a metáfora da subida do Rio Mekong em Apocalypse Now (1979), cara que lhe é a imagem do lorde das luzes que imerge na escuridão do irracionalismo, mas talvez também valesse remeter à cena final de The day after (1983). No final do filme que levou o então presidente americano R. Reagan a rever a política de escalada de tensões nucleares com a União Soviética, o Prof. Huxley (John Litigow), já irremediavelmente contaminado pela radiação, retorna para morrer na cidade natal devastada pelo holocausto, em meio à agonia dos últimos sobreviventes. Estão todos condenados na desolação pós-apocalíptica dessa famosa sequência, cujo entorno foi composto a partir de imagens retiradas de Hiroshima depois da bomba atômica. No final, o zoom out dos personagens abraçados lembra vagamente a cabaninha improvisada do final de Melancholia (2011), quando a imagem escurece e, no negrume total, se ouve a última fala do filme, uma voz num rádio amador: “Tem alguém aí? Qualquer um?!”. Quando o animado debate entre os vários aceleracionismos (de “esquerda”, maquínico-cibernético, ciborgue-ecológico, ultramodernista, singularitano) e os anti-aceleracionistas (de “esquerda”, negativistas, gaia-antropológicos, geralmente a partir de Malign Velocities, de Benjamin Noys, em 2012) se distribui entre otimistas desencantados, pessimistas alegres e pessimistas tristes, as recentes intervenções teóricas de Land — por vezes associadas ao movimento alt-right e neorreacionário — simplesmente não cabem entre as correntes em formação. Uma espécie, quem sabe, de otimismo macabro, entre a celebração futurista das velocidades e o prazer masoquista de assimilação pela máquina. Para seguir na estética do cinema, com Land estamos no mood nem tanto da paranoia nuclear de The day after, Threads (1984) ou Edge of Darkness (1985), mas sim num canto ao erotismo maquinal monstruoso que pode ser sentido, por exemplo, na trilogia de horror cyberpunk do diretor japonês Shinya Tsukamoto, começando com Tetsuo: o homem de ferro (1989).

Bruno Cava

Nota:

[1] — curiosamente, no Brasil, a “saída pela micropolítica” proposta por alguns deles nada mais é do que um novo nome para a velha “consciência de classe”, que por sua vez se resolve, no caso, na impudente filiação a Lula e ao petismo sediado em São Paulo.

APRESENTAÇÃO (por Uriel Fiori)

“O problema não é tanto as elites brancas, mas as elites aliens.”

 

Comentário crítico da apresentação

Uriel conseguiu articular e atravessar bem um grande mosaico de ideias. A forma como o Land escreve e debate as questões é uma experiência intrigante e por vezes estranha. Uriel ajudou a deixar isso mais acessível. As imagens de mundo que o Land constrói são muito interessantes e ele consegue deslocar bem o pensamento crítico dos seus lugares comuns. Ele faz um uso criativo do cinema e da literatura pra fabricar essas imagens. Também é interessante a exploração dele sobre o comércio/mercado (ou tecnocomercialismo, como ele diz) como lugar de fluxos, intensidades, aglutinações, dispersões, cortes, descontrole. Pensar o mercado como ‘lugar’ possível de disputa e construção política de autonomia. Uma área de reflexão que a esquerda abandonou totalmente. Fico pensando como a esquerda poderia ser pensada como agente coletivo concorrente com outros agentes coletivos do mercado, disputando a produção social, cultural, financeira, discursiva, semiológica, etc, e se ela seria capar de produzir esses fluxos, mas, ao contrário das empresas, liberando, descontrolando, dispersando. O que não faltam são exemplos de como a Esquerda tentou “monopolizar” fluxos que ela mesma produziu.

Land é bem mais provocador e original que os considerados “aceleracionistas de esquerda”. Na verdade, essa divisão que se faz entre os aceleracionistas, reproduzindo essas velhas dicotomias, não ajuda. O aceleracionismo é um debate, uma filosofia política, uma pesquisa que está colocando questões, como o Uriel apontou. Sem pretensão de ser uma nova “ideologia”, uma nova cartilha ou coisa assim. O que esse debate pode produzir enquanto agrupamentos e disputas ainda é muito incipiente. Apesar de já existirem disputas em torno dessas questões. Como é o caso dos debates feitos pelo Eduardo Viveiros de Castro e pesquisadores próximos a ele, que parecem detestar o aceleracionismo e já apresentam o aceleracionismo como aparentemente perigoso, ameaçador ao clima, rejeitável.

Por exemplo, o artigo do Moysés Pinto Neto na revista do Instituto Humanitas da Unisinos, em que diz que o capitalismo é aceleracionista. Mas há uma diferença grande em dizer que o capitalismo é acelerado e dizer que ele é aceleracionista, vinculando-o ao pensamento aceleracionista. O capitalismo funciona num regime acelerado, 24h/7dias, se atualizando a todo momento, mas, a crítica central do aceleracionismo é outra coisa. Não tem a ver com intensificar, superaquecer, turbinar a reprodução do sistema, repetindo-o incessantemente. Nick Land percebe dentro do metabolismo do capitalismo mais potencialidades de liberação e descontrole do que qualquer marxista já tenha feito, levando ao pé da letra a intuição de Marx e Engels no Manifesto Comunista (1848), quando escrevem que o capitalismo é um aprendiz de feiticeiro que brinca com um fogo que, no final, não poderá controlar. E é isso que o aceleracionismo propõe intensificar, essa deriva autodestrutiva do feiticeiro, mas por meio da aceleração da composição humano-técnica, para produzir mais autonomia, como o Uriel apontou.

Em alguns momentos da fala do Uriel, fiquei me questionando o quanto alguns dos problemas colocados ali não seriam velhos problemas da filosofia política, ressurgidos com uma roupagem high tech. Por exemplo, quando ele propõe um sistema cibernético de administração política, em que se é controlado tanto quanto se controla, isso me lembra muito Rousseau e a ideia de uma lei como expressão de vontade geral, em que obedecer a lei seria o mesmo que obedecer sua própria vontade, mas também todas as propostas de resolução do político no técnico, uma constante na história iluminista do socialismo e em toda a tradição das Luzes. Claro que, do ponto de vista histórico, são coisas bem diferentes, mas, assim como a filosofia política moderna pretendeu aplicar uma programação racional para fazer funcionar uma máquina política ideal, essa programação cibernética parece reeditar o mesmo problema, onde a questão tecnológica aparece apenas como um update. Na verdade, esse uso da cibernética para pensar constitucionalismo, como o Uriel expôs, já existe com a teoria dos sistemas de Niklas Luhmann, que é um modelo baseado na cibernética e que pensa o Direito como sistema cibernético, como no Direito Autopoiético formulado por Gunther Teubner. Nessa lógica luhmanniana, as suas operações progressivamente se diferenciam numa auto-operatividade num entorno caótico, relacionando-se com ele na forma de inputs e outputs, em constante retroalimentação a partir dos feedbacks.

Também percebi que não houve, ou não há, uma reflexão sobre práxis e subjetividade. Constata-se toda uma construção de modelos e explicações, mas isso não passa por um questionamento de como torná-los possíveis, de como isso funcionará enquanto ação possível em situações concretas. O Land apresenta intuições bem interessantes sobre o funcionamento maquínico do capitalismo, mas investe pouca energia para prolongar essa reflexão para o problema da ação ou intervenção. E talvez não seja mesmo uma preocupação dele, já que no final das contas parece que ele acaba assumindo posicionamentos de sabor fatalista (“seremos dominados pela inteligência artificial”, coisas do tipo); talvez também porque ele já tenha abandonado totalmente a figura do humano e, portanto, a reflexividade em relação à ação, a própria finalização dos meios. Como o próprio Uriel colocou, não há o que o humano possa fazer contra a inteligência alienígena do capitalismo.

Quanto à ideia de “exit” como alternativa a “voice”, no meu último texto no blogue Mil Brechas, escrevi algumas críticas sobre as propostas de comunidades alternativas que valem para essa proposta de êxodo. Também senti falta de qualquer reflexão sobre os conflitos e antagonismos que inevitavelmente se interporão no processo de construção dessas vias alternativas, já que terão de mexer no espaço preenchido integralmente de relações de forças entre os agentes envolvidos. Não se migra simplesmente de cidade, ou uma cidade simplesmente não se autonomiza em relação às várias instâncias de poder constituído e suas redes moleculares. Onde fica o pensamento das assimetrias, posições desvantajosas e desníveis entre os vários polos de exercício do poder e resistência?

Renan Porto

PS: Dito tudo isso, vale a pena realizar algumas expedições pelo mundo polar landiano. Uriel já traduziu para o português vários textos dos blogs do Land, que são onde está acontecendo hoje a maior parte da reflexão dele, inclusive sobre o Iluminismo Dark e o neorreacionarismo. Os textos estão publicados no blogue Xeno Sistemas. Além disso, Uriel já traduziu boa parte do livro Fanged Noumena. Com quase 700 páginas, reunindo textos de 20 anos de trabalho, está disponível no blogue numenoscompresas.wordpress.com/.

3 notas sobre eleições

1. A derrota nas eleições não pode ser percebida como derrota total. No que observo do que se escreveu depois das derrotas da esquerda, há um tom de ultimato. Como se depois das derrotas nas eleições tivéssemos que reerguer um castelo que está em ruínas. Penso que enquanto os modos de organização das lutas sociais (e me questiono o quanto posso usar “esquerda” como um signo pra isso) forem tão focados no Estado, na disputa pelo governo, muitas outras lutas que estão além disto serão perdidas. As eleições podem ser uma parte da luta, uma via estratégica, mas, não é tudo. É preciso ter um olhar mais distanciado do governo e cultivar mais o pensamento sobre a autonomia. Digo, é preciso uma desidentificação maior com o poder para funcionar melhor “fora” dele. “Fora”, entre aspas, porque o conjunto das instituições financiadas com dinheiro de impostos, o Estado, não é uma transcendência da qual o ‘social’ está fora. O Estado não tem tanta unidade e homogeneidade quanto a capenga filosofia política moderna pensou. Existe tensão entre essas instituições que o compõem. Ocupar um posto de comando não é mais que assumir uma posição estratégica. Se não há gente mais alinhada às lutas sociais ocupando estes postos, as lutas não param por causa disso.

2. Eu acho meio inútil todo discurso que tenta constituir um modo único de pensamento e ação; um discurso monolítico e não político. Lembro de Rancière que diz que só existe política quando há dissenso e no consenso há apenas governo. É inútil porque a unidade simplesmente não acontece. Os grupos e pessoas são heterogêneos, as vontades são diversas. E isso não é bom ou ruim. Isso é assim. Ao invés de tentarmos redesenhar um novo corpo ideal do que a esquerda deve ser a partir de agora, penso ser mais interessante simplesmente continuar organizando ações, agrupamentos, mobilizações, instituições, etc. Ir se espalhando, deixando que os grupos se espalhem, criando relações e trocas entre eles. Penso que é necessário multiplicar mais, espalhar mais. Chegar a alcançar um ponto de maior intensidade nas relações de poder, como a presidência, é um efeito da soma de muitos processos menores.

3. Não existe manifestação certa e errada nem é uma questão de legitimidade. As manifestações estão acontecendo. Estão aí. Elas colocam demandas, expressam a indignação social, criam arranjos, novos agrupamentos, tendências, etc. Simplesmente condenar as manifestações “verde-amarelas” não ajuda em nada; só aprofunda um abismo no qual estamos caindo. A esquerda tem funcionado sempre com essa negação de seu “outro”, esse ressentimento. Eu acho melhor tentar explorar mais algumas pautas como a corrupção, a destituição das castas, etc. E talvez tenhamos que fazer isso apesar da esquerda.