Um percurso de pesquisa em torno do Grande Sertão: Veredas

Apresentação da dissertação de mestrado Políticas de Riobaldo: a justiça jagunça e suas máquinas de guerra, realizada no seminário internacional O Trabalho das Linhas – Estética, Política e Direito, que aconteceu no Rio de Janeiro entre os dias 11 a 15 de março de 2019.
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A primeira vez que li o Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, foi num contexto de transições, mudanças e muitas dúvidas. Era início de 2017 e foi um período em que o Brasil desmoronava e convulsionava. Junto com ele minhas concepções políticas convulsionavam também. Parecia que tudo que eu entendia sobre política se tornava totalmente ineficaz para indicar caminhos possíveis a seguir. Até que chegou um momento em que constatei que eu não sabia mais no que acreditar, para onde seguir e o que afirmar. Junto a esta insegurança intelectual se somava a insegurança material e financeira da situação precária em que eu me encontrava naquele momento. Nos primeiros meses após chegar ao Rio, ainda sem receber a bolsa do mestrado, não tinha nem certeza se eu iria poder continuar no Rio para fazer o mestrado. Continuar lendo

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A violência: entre Michael Haneke e Lars von Trier

O melhor filme que vi do Lars von Trier talvez seja um dos menos violentos dele: o Europa (1991). Nos outros mais famosos e mais recentes há uma violência gratuita e fantástica que parece pretender chocar sem ter muito o que provocar no pensamento. Outro diretor que me deixou realmente inquieto com a forma como aborda a violência é o Michael Haneke. Fiquei muito chocado com o Vídeo de Benny (1992), principalmente. Os personagens e a atmosfera dos filmes do Haneke são banais, lentos e sem grandes acontecimentos, como nossa vida cotidiana. E de repente alguma coisa extremamente absurda acontece. Mas um absurdo que parece totalmente possível. Um absurdo que qualquer pessoa comum poderia ter cometido ou sido acometida. Os filmes dele tensionam essas escalas do que é possível e embaralha o limiar entre realidade e ficção nos constrangendo a pensar a violência como algo muito próximo, real e possível. Enquanto a violência do Lars von Trier é distante, fantástica e não nos assusta tanto por parecer impossível. Haneke borra a separação entre realidade e ficção. Na verdade essa separação e toda sua discussão consequente sobre a verossimilhança da ficção com a realidade, só funciona porque há aí uma concepção a priori do que é realidade. Então eu prefiro dizer que a ficção produz realidade na medida em que fabula a realidade e a recria nas imagens em que esta se apresenta e nos sentidos que lhes são impressos.

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Relativizando o axioma orçamentário

Nos debates políticos, a dimensão produtiva da sociedade sempre fica num plano secundário em relação ao investimento em serviços e políticas públicas que façam garantir os direitos básicos. Daí que o debate é logo limitado e axiomatizado pelos limites orçamentários do Estado. Antes de continuar, enfatizo isso: o investimento em serviços públicos é necessário, mas não deve ser o horizonte último das nossas perspectivas políticas.

De outro modo, penso que os modos de produção devam ser considerados enquanto dimensão primária e em sua relação imediata com a garantia de direitos. As políticas públicas devem ser meios de distribuir, dar assistência e intensificar meios de produção controlados por grupos e indivíduos de baixa renda. E, claro, isso também requer investimento estatal. A diferença é que investindo na produção os limites orçamentários deixam de ser um axioma e se tornam relativos à própria produção. Continuar lendo

Algumas notas para pensar o problema da liberdade

O Anti-Édipo, livro de Gilles Deleuze e Félix Guattari, tem uma sacada muito interessante sobre três tipos de formação social e suas superfícies de registro: a sociedade primitiva em que tudo se inscreve na terra, o corpo se registra nela e a ela tudo conduz; a sociedade despótica em que tudo se inscreve no corpo do déspota, a ele tudo pertence e ele exige tudo para si como de direito; e a sociedade capitalista em que tudo se inscreve no corpo desterritorializado e fluido do capital, toda a vida se orienta a ele, se organiza para ele e com ele, fora dele quase não há vida, ele codifica o desejo, talha o corpo aos seus moldes, ao ponto de fazer coincidir a noção de liberdade com sua própria reprodução.

Não há entre estas três formas sociais uma linha progressiva que leva de uma a outra. As duas primeiras não desapareceram e suas virtualidades persistem nas sociedades capitalistas, se atualizando de diversas formas. E em cada uma dessas formações há sempre algo que escapa aos seus códigos, o que é sempre arriscado quando as próprias formas de estar vivo de inscrevem em suas superfícies de registro. Considerar essas características das formações sociais nos ajuda a pensar sobre nossa luta por sobrevivência hoje.

Como liberar a vida dos códigos capitalistas? Como criar as condições de experiência da liberdade para além do dinheiro se até o amor, o charme e a libido são suscitados pela riqueza? Como não deixar a própria consciência ser subjugada pelo trabalho tendo a honestidade como valor de apelo último em que o pobre tenta justificar a pouca autonomia que tem? Todas essas questões passam pela luta de produzir a si mesmo, mas isto não vai muito longe se seguir o mesmo esforço individualizante de conquistar a liberdade através do dinheiro.

Não devemos reduzir a conquista da liberdade a uma concepção do sujeito livre como um self-made man, pois este não passa de alguém que foi bem disciplinado a cumprir bem as funções que lhe foram impostas para sobreviver e isto não é autodeterminação.

Ok, autodeterminação pode ser sempre uma ilusão se consideramos que nossa ação ou vontade é sempre resposta a algum conjunto de causas obscuras que quase nunca temos consciência e muito menos algum controle. Como para alguns aceleracionistas que acreditam que tudo que fazemos é efeito das causas do próprio capital agindo sobre nós e qualquer coisa que fizermos contra ele só o levará a aprimorar seus modos de reprodução de si e controle de sua própria entropia. Mas então, como produzir causas dentre estas causas? Posso tentar exercer uma autodisciplina estóica, mas sei que a qualquer momento posso sucumbir a uma sociedade que distribui desigualmente a precariedade, as dificuldades e o fracasso.

Portanto, a pergunta deve ser sobre uma causa comum da liberdade. E a própria pergunta deve nos incitar a buscar os meios de nos reconectarmos coletivamente, considerando que as redes de solidariedade que criamos entre nós permite condições que possibilitam o exercício da autonomia, tais como mais segurança, hospitalidade, afetuosidade e cuidado mútuo, compartilhamento do uso comum de alguns bens, compreensão e acolhimento, dentre outras coisas sem as quais viver se torna um caminho ainda mais solitário e estreito.

Precisamos de um conceito de liberdade como partilha e o mais desafiador para isto talvez seja recriar entre nós a confiança mútua e o desejo de estarmos juntos. Isto pode não ser o suficiente para reestruturar toda uma sociedade, mas com certeza é imprescindível para tornar este caminho possível.

Ozark, Onde a Justiça é Impossível

Publicado no livro Pensar a Netflix: ensaios de pop filosofia e política, organizado por Bruno Cava e Murilo Corrêa.

Marty Byrde, o último da fila numa rodada de tiros na cabeça. Talvez tivesse algo a dizer. Talvez para ele a hora H. Naquele momento, inconjurável. O revólver de Del Rio sobre seus olhos e seu cérebro como um acelerador de partículas operando sínteses numa velocidade antinatural. O cano na testa como o ferrão de um escorpião prestes a matar a aranha enquanto é seduzido por ela. Sua teia se fazendo não para capturá-lo em seu centro, mas para desviá-lo no tempo. Marty Byrde e seus aracnídeos traçando fios e desenhando uma imagem de futuro. Uma proposta ou um tiro. Uma proposta direta e certeira que lhe abrisse o futuro no exato momento em que a finitude se apresentava em todo seu limite. Disparou: $500 milhões devidamente lavados em 5 anos. O suficiente para distender o tempo e o dedo no gatilho naquele instante. Mas antes, ele tem três meses para devolver os $8 milhões de dólares desviados pelos antigos colegas – os primeiros da fila já enlatados pelo cartel mexicano. Continuar lendo

Entre Marx e Fourier – Pierre Klossowski comenta sobre Walter Benjamin

Esta tradução foi baseada nas traduções do texto para o espanhol e para o inglês.

Em setembro de 1940, quando Walter Benjamin decidiu por fim a sua vida, convencido de que havia perdido o jogo – por certo pudor, havia deixado passar todas as oportunidades de se salvar –, estava sem nenhuma dúvida muito longe de crer, sequer por um momento, que ao fazê-lo privaria os seus contemporâneos de um dos testemunhos mais perspicazes de nosso tempo.

Um marxista convicto – mas com uma desconfiança sempre alerta frente a toda aplicação dogmática e com uma ironia mordaz para toda discriminação excessivamente acalorada, que lhe levou a denunciar numerosos erros –, era seu propósito proteger, em sua vasta erudição (segundo uma sensibilidade absolutamente lírica), tudo aquilo que no passado constituía para ele a “sombra dos bens por vir”. Entre estes bens por vir figurava a visão de uma sociedade florescente no livre jogo das paixões. Sua nostalgia aspirava a reconciliar Marx e Fourier. Continuar lendo