Entre Marx e Fourier – Pierre Klossowski comenta sobre Walter Benjamin

Esta tradução foi baseada nas traduções do texto para o espanhol e para o inglês.

Em setembro de 1940, quando Walter Benjamin decidiu por fim a sua vida, convencido de que havia perdido o jogo – por certo pudor, havia deixado passar todas as oportunidades de se salvar –, estava sem nenhuma dúvida muito longe de crer, sequer por um momento, que ao fazê-lo privaria os seus contemporâneos de um dos testemunhos mais perspicazes de nosso tempo.

Um marxista convicto – mas com uma desconfiança sempre alerta frente a toda aplicação dogmática e com uma ironia mordaz para toda discriminação excessivamente acalorada, que lhe levou a denunciar numerosos erros –, era seu propósito proteger, em sua vasta erudição (segundo uma sensibilidade absolutamente lírica), tudo aquilo que no passado constituía para ele a “sombra dos bens por vir”. Entre estes bens por vir figurava a visão de uma sociedade florescente no livre jogo das paixões. Sua nostalgia aspirava a reconciliar Marx e Fourier. Continuar lendo

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Meu livro de poemas, O cólera A febre

No mês passado aconteceu o lançamento do meu primeiro livro de poemas.

O livro pode ser adquirido através do site da editora Urutau.

Como amostra, é possível ler alguns poemas que foram publicados anteriormente em revistas online. Deixo aqui o link para uma publicação no site da Escamandro e outra na R. Nott Magazine. Abaixo segue o texto das orelhas do livro: Continuar lendo

Uma Concepção Cibernética da Inteligência

Apresentação realizada no Festival PICNIC Brasil em novembro de 2018, sob o título “A Infecção Alienígena nos Hologramas do Real”.

Sem título

Para começar a pensar nisto devemos partir de uma concepção do corpo humano enquanto organismo cibernético. Quando falamos de cibernética talvez as primeiras imagens que nos vêm à mente sejam sistemas eletrônicos e ao pensar em ciborgues logo imaginamos um robô ou alguma outra espécie de inteligência artificial. Mas a cibernética não está apenas relacionada a computadores e sistemas eletrônicos. Ela é um campo de conhecimento dedicado a analisar o funcionamento e comportamento de diferentes tipos de sistemas – inclusive sistemas biológicos – e o modo como se operam as trocas de informações entre sistemas diferentes ou entre um sistema e seu ambiente externo. Além de pensar também os modos de controle e organização destes sistemas.

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O Jagunço Sintético e o Pensamento nos Limites da Experiência

Publicado originalmente na R. Nott Magazine.

No romance de João Guimarães Rosa, Grande Sertão: veredas, a questão da existência ou não do diabo é sempre recorrente para Riobaldo quando algum acontecimento parecia ser efeito de causas sobrenaturais. Porém, percebemos como na verdade o diabo que é sempre um efeito destes acontecimentos, que são os encontros com seres inusitados pelo sertão. Como aparece no primeiro parágrafo do romance: um bezerro branco com máscara de cachorro que ria como gente. Só podia ser ele: o demo. E aquilo ser ação demoníaca ou não era uma questão que envolvia toda a realidade do jagunço. Mesmo inexistindo, aquilo tocava diretamente sua realidade e a forma como ela era percebida por ele. Logo, o que não passava de um efeito de sentido colocava em jogo toda a configuração das relações com o ambiente, criando tensões que disparavam diferentes movimentos nos corpos envolvidos naquela trama.  Continuar lendo

Xenofilia abstrata ou isto não me é estranho

Publicado no site Clube de Livros

A expressão já implica o paradoxo de estar diante de algo estranho. A memória falha em correlacionar o que é percebido com qualquer imagem de experiências passadas. No entanto já estamos envolvidos pela presença daquela coisa. Ela nos atrai. Alguma coisa lhe falta, mas há o suficiente para causar inquietação. Não assombra tanto quanto fascina. A fascinação pelo que está além de nossos padrões de experiência e cognição é uma das primeiras características que Mark Fisher atribui ao que ele conceituou como weird no seu último livro The Weird and The Eerie, termos que traduzirei aqui como o esquisito e o insólito. Por isso a expressão xenofilia, pois estes conceitos têm a ver com uma certa inquietação desconcertante, mas interessada e curiosa, pelo que é do Fora. O Fora por sua vez não chega a ser um conceito. É justamente o que escapa ao conceito e a ontologização. Este Fora é sempre abstrato, no entanto, produz efeitos concretos. Se o Fora pudesse ser conceituado, apreendido e internalizado ao nosso sistema cognitivo, não teria este nome. Já o esquisito e o insólito são conceitos e designam experiências estéticas específicas e distintas uma da outra.

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Comunismo Ácido

Por Matt Colquhoun em Krisis – Journal for Contemporary Philosophy

Traduzido por Renan Porto e publicado no site Lavra Palavra.

Como muitos de seus neologismos, o ‘Comunismo Ácido’ de Mark Fisher guarda uma crise de desambiguação, lançando uma provocação no nosso meio. A frase – que seria o título do seu próximo livro, agora não finalizado depois da sua morte em janeiro de 2017 – tem ganhado uma atenção considerável como muitos imaginam que tipo de variação do manifesto de Marx seria ocasionada pela sua nova qualificação corrosiva.

Na verdade, o Comunismo Ácido resiste à definição. A palavra ‘ácido’ em particular, por invocar produtos químicos industriais, psicodélicos e vários sub-gêneros de dance music, é promíscuo. Com tantos usos e instanciações em vários contextos, é tão difícil de definir claramente quanto o ‘comunismo’ no século 21. Essa promiscuidade textual é sem dúvida o que atraiu Fisher à frase, mas isso não impediu tentativas recentes de traduzi-la concretamente em sua ausência.

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