A biopolítica neodesenvolvimentista e a necessidade de novos direitos

[Apresentação realizada no seminário do dia do assistente social na Universidade Veiga de Almeida, Rio de Janeiro, numa mesa com o tema Capitalismo e Democracia no Brasil contemporâneo].

 Em linhas muito gerais, podemos dizer que o capitalismo é uma forma de produzir e de organizar a produção, extrair riquezas e gerar valor. A forma como isto se deu não foi a mesma nos diferentes lugares em que o capitalismo se instalou. Afinal, há uma divisão internacional do trabalho e ainda mais depois da globalização percebemos como a produção se distribui por todo o globo terrestre numa grande rede.  Por exemplo, o telefone celular que usamos tem sua tecnologia pensada num país, sua montagem feita em outro país e as peças usadas para montá-lo podem sem pensadas e produzidas ainda em outros países. Considerando esta distribuição da produção em escala global e pensando não só a partir da realidade brasileira, mas também latino-americana, existem duas palavras-chaves para caracterizar o funcionamento do capitalismo na América Latina. Essas duas palavras são desenvolvimentismo e extrativismo e são vizinhas se tratando deste debate. As economias dos países latino-americanos são baseadas principalmente na extração e exportação de commodities e isso é base para os modelos de desenvolvimento destes países. Continuar lendo

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Política em Transe #3 | Gambiarras, Jeitos, Bricolagem e Altereconomia

Ano passado participei desse podcast do canal Transe com o Moysés Pinto Neto e o Tom Magalhães. Havia esquecido de postar por aqui… Acostumado demais com a forma-texto. Mas segue agora!

Para lembrar que queremos mais

Quando fui para a primeira marcha da Marielle tive uma esperança que há muito tempo não sentia: a de que fazer política, pensar política, falar sobre política, fossem atividades novamente densas e carregadas do desejo de ultrapassar e enterrar a mediocridade que pesava sobre essas mesmas atividades; afirmar uma mudança real; pensar já a partir de um outro horizonte de possibilidades com outros problemas e outros conflitos que tocam mais diretamente a forma como o poder se exerce no seu limite sobre o corpo: a violência.

Aquela primeira marcha provocou uma ambiguidade nos debates posteriores sobre ela que me pareceu interessante. Isto me dava a perceber uma carga de virtualidades que vibravam entre nosso silêncio e o nosso grito. A vibração de um murmúrio do tempo, que queria dar a ver sua passagem, sussurrando que as coisas já não eram mais as mesmas. Há muito tempo não via manifestações em que não éramos posicionados de antemão, que já não pudéssemos sentir o cansaço de ter visto tudo e tudo nos soar como o peso de um passado morto, que não lembrava nada além de si mesmo. Não, o que me assombrava naquela noite era o peso de um passado vivo. Um passado que insistia em me apresentar o futuro como diferença. E esta diferença naquele dia nos foi apresentada como o terror.

Podíamos ser ambíguos em nossas conversas sobre o caráter de composição das ruas, as forças que se apresentavam ali, a ausência da polícia militar concomitante a ausência da violência, os rumos que tudo iria tomar, etc, mas uma coisa não cansava de pousar suas asas sobre nossa memória: o terror. E diante dele não pestanejávamos. Nós afirmamos a presença do terror e a política o apresentava agora de forma crua.

Mas foi justamente diante do terror que sentimos a força de não termos um rosto, de sermos muitos foda-se ao lado de quem fosse, mas contra o terror. Mais do que medo, sentimos que talvez agora realmente a ferida fosse tocada, que podíamos apertá-la contra si mesma até ela nos dar a sua cor mais podre.

Nada mais intolerável que a execução de uma mulher negra da favela, o apagamento de sua presença pública, a interrupção de sua ascensão, que era também a ascensão de outro povoamento da política, com a irrupção de outros corpos e racionalidades que jamais couberam na mediocridade de nossa democracia. E era justamente isso que sentimos naquela noite: nossa democracia sequelada. E que não cansa de ser sequelada, mas que insiste em ser mais do que uma forma de estado: ser uma forma de movimento que só se faz quando nossos corpos se movimentam. Era este movimento que a rede mafiosa que nos governa queria estancar.

Mas o quanto nos é intolerável agora tal acontecimento? Por um momento tomou nossa atenção a configuração das redes de circulação do tráfico, das milícias, das máfias e facções, das armas, das balas, do sangue negro que essas balas fazem jorrar e do seu rosto mais pudico: o Estado. Não demorou muito para que voltássemos a lamuriar o futuro como fracasso. E então o terror volta a nos submeter a sua lógica de pensar, sentir e sonhar. Que alguém tenha que nos salvar e que não sejamos capazes de nos salvar juntos uns aos outros. Que nossa esperança se limite a distribuir o terror longe de nós. Que ele fique lá onde jamais ameaçou o Estado democrático de Direito: nas favelas, nas aldeias, nos quilombos, nas ribeiras, nos presídios. E para isso acatamos os possíveis que nos estão dados pelo círculo de horror que nos governa. Não outras e outras Marielles, mas a mediocridade do menos pior.

Círculos que não se fecham, corpos que não se seguram

Publicado originalmente na R. Nott Magazine

O que primeiro me queimou os olhos talvez tenha sido quão alto subiu a labareda de uma cesura. Um traço entre os que brincavam com fogo e os que desejavam água, mais água, as águas de um afogamento, que lavasse os mascarados de sua anormalidade. “A luta de verdade é aqui. Vocês tem que se juntar à nós”, ouvia-se do palco enquanto a praça ainda não se convertera totalmente num palco de guerra. Percebi então quão ilegíveis eram os signos da velocidade. Cada bomba que explodia era o grito de um passado que nos fazia fugir em direção a um futuro cada vez pior. Os olhos agora queimavam com o gás lacrimogênio. As explosões insistiam em lembrar minha incapacidade de alcançar o presente. Quiçá era possível enxergar uma saída além daquela a que nos empurravam. Logo, não havia possível. O possível não era mais que uma única realidade já dada que nos forçavam a viver e correr para ela como ratos para a ratoeira. Continuar lendo

Ciborgues sonham com britadeiras?

Publicado originalmente na revista Lugar Comum nº 50

[…]

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!

[…]

Fernando Pessoa, Ode triunfal –Londres, 1914

1. Ciborgues

O que torna este poema epigrafado interessante para começar a pensar sobre aceleracionismo é a simpatia que ele manifesta em relação ao maquinário posto em movimento pela modernidade. Parece haver nele uma excitação de como isso poderia nos levar à superação dos limites do corpo humano. Fazer coisas de formas cada vez mais rápidas e eficientes. Os textos sobre aceleracionismo, principalmente os de Nick Land, estão recheados de figuras como ciborgues (cyberneticorganism = cyb + org), robôs e monstros alienígenas. Personagens como O exterminador do futuro (James Cameron, 1985) ou os personagens do filme Blade runner, o caçador de andróides (Ridley Scott, 1982). Interessante lembrar aqui um texto-manifesto, bem anterior ao Manifesto Aceleracionista: o Manifesto Ciborgue (1984) da filósofa e bióloga irlandesa Donna Haraway. Nesse texto, ela observa que a figura do ciborgue não é algo que está num futuro distante. Nós já somos ciborgues; nós já fazemos grandes esforços para melhorar o rendimento do nosso corpo, a eficácia da nossa inteligência, para aumentarmos a concentração. Já dispomos de diferentes técnicas e suplementos a fim de superar os nossos próprios limites corporais e dar conta do ritmo cada vez mais acelerado de nossas rotinas nas cidades. Porém, nessa correria para atender às exigências que nos são impostas, temos a nossa subjetividade moldada de maneira heterônoma. Continuar lendo

Constitucionalismo Social e as Políticas do Comum

Gunther Teubener, IUC Torino e Universidade de Frankfurt

Tradução de Renan Porto[1] e Luiz Felipe Teves[2], publicada originalmente na revista Lugar Comum nº 49

No artigo introdutório desse evento[3], Sandro Mezzadra colocou questões precisas, que possibilitam identificar convergências e divergências de duas leituras do Direito Global apresentadas por Antonio Negri e por mim. Eu vou discutir cada questão e formular tentativas de respostas.

  1. Questão Um: Qual o Futuro da Divisão Público-Privado?

Ambas abordagens (de A. Negri e a minha) insistem em uma crítica fundamental da distinção privado/público. Para A. Negri, a crise da sociedade moderna se deve pela divisão da propriedade privada e propriedade pública no capitalismo. Meu ponto de partida é a inadequação da distinção entre um setor privado e um setor público e entre direito privado e direito público. O problema, portanto, é como deslocar esta distinção e como recolocá-la. Teóricos sociais têm repetidamente analisado a ruptura da fronteira entre Estado e sociedade, mas o que eles oferecem como alternativa é uma politização total da sociedade inteira. Similarmente, a distinção entre direito público e direito privado tem sido atacada por muitos estudiosos do direito, mas têm sido substituída pela vaga afirmação que direito privado é profundamente político. Negri toma um caminho diferente. Ele critica a propriedade privada bem como a propriedade pública, enquanto esta última é entendida como propriedade do Estado, e recoloca a distinção por outro conceito: o comum. Continuar lendo

Nota intempestiva, ato da Greve Geral, 28/04

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O que primeiro me queimou os olhos talvez tenha sido quão alto subiu a labareda de uma cesura. Um traço entre os que brincavam com fogo e os que desejavam água, mais água, as águas de um afogamento, que lavasse os mascarados de sua anormalidade. “A luta de verdade é aqui. Vocês tem que se juntar à nós”, ouvia-se do palco enquanto a praça ainda não se convertera totalmente num palco de guerra. Percebi então quão ilegíveis eram os signos da velocidade. Cada bomba que explodia era o grito de um passado que nos fazia fugir em direção a um futuro cada vez pior. Os olhos agora queimavam com o gás lacrimogênio. As explosões insistiam em lembrar minha incapacidade de alcançar o presente. Quiçá era possível enxergar uma saída além daquela a que nos empurravam. Logo, não havia possível. O possível não era mais que uma única realidade já dada que nos forçavam a viver e correr para ela como ratos para a ratoeira. Mas as bombas, o passo lento do policial levantando a arma e apontando em nossa direção, três helicópteros iluminando nossas cabeças e ofuscando ainda mais o brilho de qualquer estrela, que assim como o estrondo das bombas também era uma insistência do passado, tudo isso me fazia perceber que meu corpo era uma dobradiça entre a lentidão do meu pensamento e as velocidades intensas da realidade. O que eu conseguisse fazer ali não seria em termos de inteligência. O meu aparelho sensório-motor era lento e todo recorte que fazia para pensar uma ação já não me servia mais. Eu era forçado a pensar um pensamento que não era meu e que nenhuma voz sussurrou ao vento. Entre todos os estímulos a que era exposto meu corpo – não se tratando de teoremas com respostas dadas, mas de problemas a serem colocados e avaliados quanto a essa colocação – a escolha que fiz foi fugir para dar mais condições corporais, portanto, temporais de complexificar melhor o intervalo entre os estímulos e as possíveis respostas. Ou seja, pensar e pensar como um baterista de jazz tirado da plateia de forma inusitada para tocar com uma banda desconhecida uma música que nunca ouviu; pensar por tendências e se relacionar com outras frequências.