Para lembrar que queremos mais

Quando fui para a primeira marcha da Marielle tive uma esperança que há muito tempo não sentia: a de que fazer política, pensar política, falar sobre política, fossem atividades novamente densas e carregadas do desejo de ultrapassar e enterrar a mediocridade que pesava sobre essas mesmas atividades; afirmar uma mudança real; pensar já a partir de um outro horizonte de possibilidades com outros problemas e outros conflitos que tocam mais diretamente a forma como o poder se exerce no seu limite sobre o corpo: a violência.

Aquela primeira marcha provocou uma ambiguidade nos debates posteriores sobre ela que me pareceu interessante. Isto me dava a perceber uma carga de virtualidades que vibravam entre nosso silêncio e o nosso grito. A vibração de um murmúrio do tempo, que queria dar a ver sua passagem, sussurrando que as coisas já não eram mais as mesmas. Há muito tempo não via manifestações em que não éramos posicionados de antemão, que já não pudéssemos sentir o cansaço de ter visto tudo e tudo nos soar como o peso de um passado morto, que não lembrava nada além de si mesmo. Não, o que me assombrava naquela noite era o peso de um passado vivo. Um passado que insistia em me apresentar o futuro como diferença. E esta diferença naquele dia nos foi apresentada como o terror.

Podíamos ser ambíguos em nossas conversas sobre o caráter de composição das ruas, as forças que se apresentavam ali, a ausência da polícia militar concomitante a ausência da violência, os rumos que tudo iria tomar, etc, mas uma coisa não cansava de pousar suas asas sobre nossa memória: o terror. E diante dele não pestanejávamos. Nós afirmamos a presença do terror e a política o apresentava agora de forma crua.

Mas foi justamente diante do terror que sentimos a força de não termos um rosto, de sermos muitos foda-se ao lado de quem fosse, mas contra o terror. Mais do que medo, sentimos que talvez agora realmente a ferida fosse tocada, que podíamos apertá-la contra si mesma até ela nos dar a sua cor mais podre.

Nada mais intolerável que a execução de uma mulher negra da favela, o apagamento de sua presença pública, a interrupção de sua ascensão, que era também a ascensão de outro povoamento da política, com a irrupção de outros corpos e racionalidades que jamais couberam na mediocridade de nossa democracia. E era justamente isso que sentimos naquela noite: nossa democracia sequelada. E que não cansa de ser sequelada, mas que insiste em ser mais do que uma forma de estado: ser uma forma de movimento que só se faz quando nossos corpos se movimentam. Era este movimento que a rede mafiosa que nos governa queria estancar.

Mas o quanto nos é intolerável agora tal acontecimento? Por um momento tomou nossa atenção a configuração das redes de circulação do tráfico, das milícias, das máfias e facções, das armas, das balas, do sangue negro que essas balas fazem jorrar e do seu rosto mais pudico: o Estado. Não demorou muito para que voltássemos a lamuriar o futuro como fracasso. E então o terror volta a nos submeter a sua lógica de pensar, sentir e sonhar. Que alguém tenha que nos salvar e que não sejamos capazes de nos salvar juntos uns aos outros. Que nossa esperança se limite a distribuir o terror longe de nós. Que ele fique lá onde jamais ameaçou o Estado democrático de Direito: nas favelas, nas aldeias, nos quilombos, nas ribeiras, nos presídios. E para isso acatamos os possíveis que nos estão dados pelo círculo de horror que nos governa. Não outras e outras Marielles, mas a mediocridade do menos pior.

Anúncios

Círculos que não se fecham, corpos que não se seguram

Publicado originalmente na R. Nott Magazine

O que primeiro me queimou os olhos talvez tenha sido quão alto subiu a labareda de uma cesura. Um traço entre os que brincavam com fogo e os que desejavam água, mais água, as águas de um afogamento, que lavasse os mascarados de sua anormalidade. “A luta de verdade é aqui. Vocês tem que se juntar à nós”, ouvia-se do palco enquanto a praça ainda não se convertera totalmente num palco de guerra. Percebi então quão ilegíveis eram os signos da velocidade. Cada bomba que explodia era o grito de um passado que nos fazia fugir em direção a um futuro cada vez pior. Os olhos agora queimavam com o gás lacrimogênio. As explosões insistiam em lembrar minha incapacidade de alcançar o presente. Quiçá era possível enxergar uma saída além daquela a que nos empurravam. Logo, não havia possível. O possível não era mais que uma única realidade já dada que nos forçavam a viver e correr para ela como ratos para a ratoeira. Continuar lendo

Ciborgues sonham com britadeiras?

Publicado originalmente na revista Lugar Comum nº 50

[…]

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!

[…]

Fernando Pessoa, Ode triunfal –Londres, 1914

1. Ciborgues

O que torna este poema epigrafado interessante para começar a pensar sobre aceleracionismo é a simpatia que ele manifesta em relação ao maquinário posto em movimento pela modernidade. Parece haver nele uma excitação de como isso poderia nos levar à superação dos limites do corpo humano. Fazer coisas de formas cada vez mais rápidas e eficientes. Os textos sobre aceleracionismo, principalmente os de Nick Land, estão recheados de figuras como ciborgues (cyberneticorganism = cyb + org), robôs e monstros alienígenas. Personagens como O exterminador do futuro (James Cameron, 1985) ou os personagens do filme Blade runner, o caçador de andróides (Ridley Scott, 1982). Interessante lembrar aqui um texto-manifesto, bem anterior ao Manifesto Aceleracionista: o Manifesto Ciborgue (1984) da filósofa e bióloga irlandesa Donna Haraway. Nesse texto, ela observa que a figura do ciborgue não é algo que está num futuro distante. Nós já somos ciborgues; nós já fazemos grandes esforços para melhorar o rendimento do nosso corpo, a eficácia da nossa inteligência, para aumentarmos a concentração. Já dispomos de diferentes técnicas e suplementos a fim de superar os nossos próprios limites corporais e dar conta do ritmo cada vez mais acelerado de nossas rotinas nas cidades. Porém, nessa correria para atender às exigências que nos são impostas, temos a nossa subjetividade moldada de maneira heterônoma. Continuar lendo

Constitucionalismo Social e as Políticas do Comum

Gunther Teubener, IUC Torino e Universidade de Frankfurt

Tradução de Renan Porto[1] e Luiz Felipe Teves[2], publicada originalmente na revista Lugar Comum nº 49

No artigo introdutório desse evento[3], Sandro Mezzadra colocou questões precisas, que possibilitam identificar convergências e divergências de duas leituras do Direito Global apresentadas por Antonio Negri e por mim. Eu vou discutir cada questão e formular tentativas de respostas.

  1. Questão Um: Qual o Futuro da Divisão Público-Privado?

Ambas abordagens (de A. Negri e a minha) insistem em uma crítica fundamental da distinção privado/público. Para A. Negri, a crise da sociedade moderna se deve pela divisão da propriedade privada e propriedade pública no capitalismo. Meu ponto de partida é a inadequação da distinção entre um setor privado e um setor público e entre direito privado e direito público. O problema, portanto, é como deslocar esta distinção e como recolocá-la. Teóricos sociais têm repetidamente analisado a ruptura da fronteira entre Estado e sociedade, mas o que eles oferecem como alternativa é uma politização total da sociedade inteira. Similarmente, a distinção entre direito público e direito privado tem sido atacada por muitos estudiosos do direito, mas têm sido substituída pela vaga afirmação que direito privado é profundamente político. Negri toma um caminho diferente. Ele critica a propriedade privada bem como a propriedade pública, enquanto esta última é entendida como propriedade do Estado, e recoloca a distinção por outro conceito: o comum. Continuar lendo

Nota intempestiva, ato da Greve Geral, 28/04

​_

O que primeiro me queimou os olhos talvez tenha sido quão alto subiu a labareda de uma cesura. Um traço entre os que brincavam com fogo e os que desejavam água, mais água, as águas de um afogamento, que lavasse os mascarados de sua anormalidade. “A luta de verdade é aqui. Vocês tem que se juntar à nós”, ouvia-se do palco enquanto a praça ainda não se convertera totalmente num palco de guerra. Percebi então quão ilegíveis eram os signos da velocidade. Cada bomba que explodia era o grito de um passado que nos fazia fugir em direção a um futuro cada vez pior. Os olhos agora queimavam com o gás lacrimogênio. As explosões insistiam em lembrar minha incapacidade de alcançar o presente. Quiçá era possível enxergar uma saída além daquela a que nos empurravam. Logo, não havia possível. O possível não era mais que uma única realidade já dada que nos forçavam a viver e correr para ela como ratos para a ratoeira. Mas as bombas, o passo lento do policial levantando a arma e apontando em nossa direção, três helicópteros iluminando nossas cabeças e ofuscando ainda mais o brilho de qualquer estrela, que assim como o estrondo das bombas também era uma insistência do passado, tudo isso me fazia perceber que meu corpo era uma dobradiça entre a lentidão do meu pensamento e as velocidades intensas da realidade. O que eu conseguisse fazer ali não seria em termos de inteligência. O meu aparelho sensório-motor era lento e todo recorte que fazia para pensar uma ação já não me servia mais. Eu era forçado a pensar um pensamento que não era meu e que nenhuma voz sussurrou ao vento. Entre todos os estímulos a que era exposto meu corpo – não se tratando de teoremas com respostas dadas, mas de problemas a serem colocados e avaliados quanto a essa colocação – a escolha que fiz foi fugir para dar mais condições corporais, portanto, temporais de complexificar melhor o intervalo entre os estímulos e as possíveis respostas. Ou seja, pensar e pensar como um baterista de jazz tirado da plateia de forma inusitada para tocar com uma banda desconhecida uma música que nunca ouviu; pensar por tendências e se relacionar com outras frequências.

O aceleracionismo interpelado pelo corpo

Por Franco Berardi (Bifo), em e-flux, junho de 2013 | Trad. Renan Porto, UniNômade

 

A aceleração é uma condição para o colapso final do poder?

Aceleração é a característica essencial do crescimento capitalista: aumentar a produtividade implica uma intensificação no ritmo de produção e exploração. A hipótese aceleracionista, mesmo assim, aponta as implicações contraditórias do processo de intensificação, enfatizando em particular a instabilidade que a aceleração traz ao sistema capitalista. Contra essa hipótese, porém, minha resposta para a questão se a aceleração seria capaz de produzir um colapso final do poder é bem simples: não. Não, porque o poder do capital não está baseado na estabilidade. Naomi Klein explicou a habilidade do capitalismo em lucrar na catástrofe. Além disso, o poder capitalista, na era da complexidade, não está baseado em decisões lentas, racionais e conscientes, mas em automatismos incorporados que não se movem na velocidade do cérebro humano. Pelo contrário, se movem na velocidade do próprio processo catastrófico. Continuar lendo

A sordidez do conteúdo desses dias maquinais

Introdução aos poemas publicados na R. Nott Magazine

Alugar o corpo para um poema. Pagar o aluguel do próprio corpo com um poema. O poema como um outro regime corporal. Um outro corpo. Não um outro ‘eu’, mas um outro. Escrever poemas como se arranca costelas para germinar o pecado no mundo. Não o pecado, mas a possibilidade de conhecer o inviolável e possibilitar mil outras experiências. Os riscos da novidade ou uma monotonia eterna. O estrago feito pelo poema me tirou de um paraíso, paradeiro, paralisia. Não havia mais mundo, mas outros mundos se recompondo e se destruindo a todo momento. Se eu tivesse me rendido àquela alegria original da brisa suave de um poema, nunca teria escrito mais do que marcas de morte fantasiada de vida. Os poemas produzem oxigênio e é possível respirar com eles. É possível mastigá-los. É possível responder as acusações com poemas e assim não respondê-las. “Meu corpo”, Artaud, “meu corpo”, a questão que se coloca, “no meu corpo não se toca nunca”, para acabar com o julgamento de Deus. E é preciso destruir-se como ‘eu’ para realmente encontrar a solidão. A possibilidade. A possibilidade. A possibilidade. Os possíveis. Os possíveis. Os pus os pus os pus & foi isso a poesia. Não foi nunca. Nunca houve. Eu escrevi trezentos poemas. Eu apaguei muitos. Eu apaguei. Eu apaguei eu e e e à cada poema. Escrevi esse texto em torno de outubro de 2015: O texto do fim do texto: A escrita diante do espelho. A escrita contra si. Um perspectivismo e um multinaturalismo de si. São os mundos que são outros e não as formas de significa-los, como na metafísica canibal de Eduardo Viveiros de Castro. Foi naquele ano foi o ano que li quase tudo de Waly Salomão ouvindo Jards Macalé. Foi o ano que conheci o Pércio e conhecer o Pércio foi como ter um encontro com Cristo. A poesia tirou a religião de mim para que eu pudesse encontrar a fé. Foi o ano que fiz minhas primeiras aventuras no Rio de Janeiro. Agora eu moro no Rio de Janeiro e parece que This must be the place: home is where i want to be. Em 2015 eu ainda estava em Uberaba. Não suportava mais a faculdade e só queria terminar logo aquilo e vazar. Cada poema que eu escrevia era uma forma de dar essa vazão. Em 2015 eu desisti de publicar um livro e apaguei mais de 80% de tudo que havia escrito. Foi com o Pércio que conheci Artaud, Lautreamont, Herberto Helder. Citação: Poemacto IV, de Herberto Helder. Eu já era apaixonado por Fernando Pessoa. O poema ‘Tabacaria’ do Álvaro de Campos foi um dos maiores rasgos de 2013. Uma outra vida começou ali & era escabroso. Não houve coisa melhor do que se permitir algumas doses de caos & foi horrível & foi maravilhoso. Em 2015 eu conheci o Nícollas Ranieri. O Nícollas foi uma escola sem paredes. Não havia quadro negro. Por mais que fosse negra a nuvem que já cobria o céu. Parecia que eu só tinha a poesia contra o mundo, mas tive o Nícollas também. E aqueles terzinhos quando aconteciam me permitiam continuar quebrando mato. Dentre os rasgos de junho de 2013, eu já lia os textos do Bruno Cava e foi também em 2015 que o conheci na minha primeira viagem ao Rio. A poesia sempre foi um exercício de exploração nas bordas do pensamento. A dobra. Cadê a dobra? Caía-se em outro lugar. Na minha primeira semana morando no Rio fui nas primeiras aulas dos cursos do Bruno sobre os Mil Platôs de Deleuze e Guattari e sobre Henri Bergson e Deleuze. Eu consegui respirar ali. Era possível dar risada. Eu odeio o fato de que a edição brasileira dos Mil Platôs é dividida em 5 volumes. No volume 2 li sobre as máquinas de enunciação que provocam as transformações incorpóreas das coisas do mundo. Não era sobre o mundo que se escrevia. A poesia cria seus outros mundos deste mundo. Se é que se pode falar de “este”. Se é que se pode falar. A poesia foi então a possibilidade de continuar falando e de poder dizer algo e acreditar que algo realmente estava sendo dito; de que havia um dizer que era já um dito. Mil ainda é um número muito pequeno. Eu quero poder pensar números tão grandes quanto pensou Srinivasa Ramanujan. Os cálculos dele são usados para analisar o comportamento dos buracos negros. A poesia produz buracos negros. Especula possíveis conexões com outros espaços-tempos. “Poesia: procura de um agora e um aqui”, Octavio Paz, O arco e a lira. É aqui e agora que eu posso estar em outro tempo e em outro lugar. Foi abismante quando soube que Pasolini era realista. Não sabia que a realidade podia tanto. A poesia como prática de tensionar os limites. O limite a lide do possível. Em 2016, quando tantos mundos acabaram para tanta gente, inclusive para mim, aprendi a acreditar de novo. E é preciso acreditar nas coisas para vivê-las. Neste sentido, o milagre é possível. Me interessam agora os textos que conseguem multiplicar os pães e transformar água em vinho. Tornar a vida possível. Resistir contra os tribunais da má consciência e suas crateras de ressentimento.