spaghetti nietzscheano

No momento que tentava inutilmente controlar o macarrão com o garfo numa mão e na outra sustentava um livro de Nietzsche aos olhos, entendi porque Oswald considerava mais importante a odontologia que a ontologia. Era na deglutição que se dava a verdadeira compreensão da vida como pura devoração e as contrações mandibulares não se separavam em nada das sinapses cerebrais. Com minha arcada dentaria eu devorava uma mônada do universo macarrônico que é a cosmologia nietzschiana, onde se puxa um fio e não se sabe quantos outros se movem. Uma concepção entrópica do mundo como composição de fios e linhas de forças entrelaçadas entre si, agindo umas sobre as outras, de modo suculento e com gosto de alho. Nessa metafísica digestiva em que os olhos traçam as linhas do texto na mesma medida que a mão com sua cegueira tenta enrolar o macarrão ao garfo sem cuspir molho na página, a ação não é mais do que uma luta da inteligência tentando aprimorar o instinto em intuição. E tudo isso cozido num molho dinamarquês de angústia e desespero, que era como Kierkeegard cozinhava seu macarrão. Nem ele nem Nietzsche conseguiram determinar entre todos esses fios uma relação de causalidade, mas afirmavam a tragédia da página manchada com um grande “eu quero”. Mesmo que sempre depois da página manchada que gostariam de evitar. O que seria também minha insistência de continuar lendo ao comer macarrão, acreditando encontrar aí o didatismo perdido no fundo desse spaghetti hermético.

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O Jagunço Sintético e o Pensamento nos Limites da Experiência

Publicado originalmente na R. Nott Magazine.

No romance de João Guimarães Rosa, Grande Sertão: veredas, a questão da existência ou não do diabo é sempre recorrente para Riobaldo quando algum acontecimento parecia ser efeito de causas sobrenaturais. Porém, percebemos como na verdade o diabo que é sempre um efeito destes acontecimentos, que são os encontros com seres inusitados pelo sertão. Como aparece no primeiro parágrafo do romance: um bezerro branco com máscara de cachorro que ria como gente. Só podia ser ele: o demo. E aquilo ser ação demoníaca ou não era uma questão que envolvia toda a realidade do jagunço. Mesmo inexistindo, aquilo tocava diretamente sua realidade e a forma como ela era percebida por ele. Logo, o que não passava de um efeito de sentido colocava em jogo toda a configuração das relações com o ambiente, criando tensões que disparavam diferentes movimentos nos corpos envolvidos naquela trama.  Continuar lendo

Xenofilia abstrata ou isto não me é estranho

A expressão já implica o paradoxo de estar diante de algo estranho. A memória falha em correlacionar o que é percebido com qualquer imagem de experiências passadas. No entanto já estamos envolvidos pela presença daquela coisa. Ela nos atrai. Alguma coisa lhe falta, mas há o suficiente para causar inquietação. Não assombra tanto quanto fascina. A fascinação pelo que está além de nossos padrões de experiência e cognição é uma das primeiras características que Mark Fisher atribui ao que ele conceituou como weird no seu último livro The Weird and The Eerie, termos que traduzirei aqui como o esquisito e o insólito. Por isso a expressão xenofilia, pois estes conceitos têm a ver com uma certa inquietação desconcertante, mas interessada e curiosa, pelo que é do Fora. O Fora por sua vez não chega a ser um conceito. É justamente o que escapa ao conceito e a ontologização. Este Fora é sempre abstrato, no entanto, produz efeitos concretos. Se o Fora pudesse ser conceituado, apreendido e internalizado ao nosso sistema cognitivo, não teria este nome. Já o esquisito e o insólito são conceitos e designam experiências estéticas específicas e distintas uma da outra.

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Comunismo Ácido

Por Matt Colquhoun em Krisis – Journal for Contemporary Philosophy

Traduzido por Renan Porto

Como muitos de seus neologismos, o ‘Comunismo Ácido’ de Mark Fisher guarda uma crise de desambiguação, lançando uma provocação no nosso meio. A frase – que seria o título do seu próximo livro, agora não finalizado depois da sua morte em janeiro de 2017 – tem ganhado uma atenção considerável como muitos imaginam que tipo de variação do manifesto de Marx seria ocasionada pela sua nova qualificação corrosiva.

Na verdade, o Comunismo Ácido resiste à definição. A palavra ‘ácido’ em particular, por invocar produtos químicos industriais, psicodélicos e vários sub-gêneros de dance music, é promíscuo. Com tantos usos e instanciações em vários contextos, é tão difícil de definir claramente quanto o ‘comunismo’ no século 21. Essa promiscuidade textual é sem dúvida o que atraiu Fisher à frase, mas isso não impediu tentativas recentes de traduzi-la concretamente em sua ausência.

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Derride, derridentes

Ninguém lida melhor com seus ‘opositores’ do que Derrida. Por ser ele, não confiem na oposição. Naquele ambiente repartido entre nós os fulanos e eles os ciclanos, Derrida chega aos seus opositores e os interpela: “que negócio é esse aí? deixa eu ver. me dê aí que eu quero ver uma coisa rapidinho”. Ele pega de um jeito que parece que tá alisando, gostando da coisa, então quando larga, não mudou nada, mas de repente os fulanos se ciclanizaram e os ciclanos agora querem fulanizar todo mundo. Derrida é o Bruce Lee na Torre de Babel. Tudo é golpe e as línguas voltam a se compreender quando esqueceram de si mesmas. O método derridiano é a heresia. Corroer a verdade na mesma medida que a multiplica ao infinito. Uma fábrica de simulacros com um monte de operários desesperados tentando agarrar a verdadeira ideia inutilmente. Ou Naruto é quem matou Platão. Logo, Derrida é neopentecostal. Não tem papa que controle e uma nova doutrina pode estar sempre na próxima esquina. Quando ninguém aguenta mais, lhe chamam de covarde. Os mesmos que nunca tiveram a coragem de permitir a liberdade de seus pupilos, os que querem permanecer como monumento histórico de uma ideia, os que querem guiar a malta de desentendidos ao bom caminho da emancipação. Mas, logo ele responderia: “covardia ou cor vadia? A vadiagem da cor…”. E dava seu salto escorregando num arco-íris que ninguém sabe onde vai se esgotar.

A biopolítica neodesenvolvimentista e a necessidade de novos direitos

[Apresentação realizada no seminário do dia do assistente social na Universidade Veiga de Almeida, Rio de Janeiro, numa mesa com o tema Capitalismo e Democracia no Brasil contemporâneo].

Em linhas muito gerais, podemos dizer que o capitalismo é uma forma de produzir e de organizar a produção, extrair riquezas e gerar valor. A forma como isto se deu não foi a mesma nos diferentes lugares em que o capitalismo se instalou. Afinal, há uma divisão internacional do trabalho e ainda mais depois da globalização percebemos como a produção se distribui por todo o globo terrestre numa grande rede. Por exemplo, o telefone celular que usamos tem sua tecnologia pensada num país, sua montagem feita em outro país e as peças usadas para montá-lo podem ser pensadas e produzidas ainda em outros países. Considerando esta distribuição da produção em escala global e pensando não só a partir da realidade brasileira, mas também latino-americana, existem duas palavras-chaves para caracterizar o funcionamento do capitalismo na América Latina. Essas duas palavras são desenvolvimentismo e extrativismo e são vizinhas se tratando deste debate. As economias dos países latino-americanos são baseadas principalmente na extração e exportação de commodities e isso é base para os modelos de desenvolvimento destes países.

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