Fomos tão ensinados a obedecer que sentimos uma dificuldade enorme para criar. Sempre precisamos que um líder aponte o que deve ser feito. Anos de escola e universidade serviram para isso: formar mão de obra. Anos sentados na frente da TV nos ensinaram a sermos meros espectadores. Estamos tão desacostumados a criar coisas que isso parece ser tão difícil e estranho. Com tantas instituições para fazer tudo, nossa ação se resumiu a praticamente apenas pedir.

A ação política há mais de dois séculos tem sido isso: pedir. Ação política reivindicativa. Tendo o Estado como mediador central das construções e mudanças sociais. Quanto mais reivindicamos direitos, mais implicados estaremos no Estado e suas formas de controle e disciplina. Hoje esse tipo de ação apresenta seus limites, pois são facilmente dispersadas pela violência policial. Talvez o ‘sistema’ já esteja expert em lidar com isso, com métodos de previsão e repressão, etc. E, especialmente, de dissipação: quando quer que uma intensidade reivindicadora se apresente no campo político, o Estado é capaz de “ouvi-la”, fazer algum ritual que sinalize aceitação e, assim, dispersar tal intensidade sem produzir qualquer tipo de mudança estrutural. O produto primário da opressão é sua legitimação.

Nos tornamos ótimos pedintes e espectadores. Pedintes intransigentes. Espectadores atentos e inteligentes, como muitos intelectuais, que sabem identificar os comportamentos das instituições e personagens da política, mas que sempre terminam dizendo o que devemos pedir da próxima vez. Falta imaginação política. Invenção e criação. Precisamos de mais futuro que passado. Não que devemos deixar de estudar a história, mas se continuarmos repetindo as mesmas táticas que já foram tantas vezes vencidas, continuaremos perdendo.

Ir além de uma ação política reivindicativa é ir além do Estado como coordenador central. Sabemos que o Estado tem um acúmulo de riqueza e poder enorme. Há um debate antigo entre anarquistas e socialistas sobre a necessidade de tomar ou não o poder do Estado. Mas, sabemos também que pouco temos acesso a essas riquezas e aqueles que vivem nas periferias sabem ainda mais como esse poder do Estado se faz presente. O Estado é também um dos principais obstáculos para que a população comece a empreender suas formas autônomas de subsistência. Qualquer microempreendedor brasileiro sabe as barreiras tributárias e fiscais que enfrenta para vender uma bala na rua.

O Estado age assim para proteger mercados. Os agentes que ocupam as posições de mando no Estado são financiados por empresas. O corporativismo estatal é primário e simplório em seus mecanismos por essas bandas brasileiras. Essencialmente uma pilha dos oligarcas suspeitos de sempre (industrialistas, grandes latifundiários e pecuaristas) desembolsam quantidades nababescas de dinheiro a fim de financiar campanhas de políticos que lhes fornecem serviços altamente lucrativos para ambos: contratos de obras, isenções especiais, regulações de mercado, subsídios e linhas de crédito, entre outras utilidades macroeconômicas à gosto. Tudo às custas de impostos altamente regressivos.

A classe média é domesticada com universidades públicas – financiadas pelos mesmos impostos regressivos – em que se pode brincar de política e até mesmo estagiar nos escalões mais juniores do jogo de poder que, eventual e inexoravelmente, levam à mesmíssima prestação de serviços pra elites. Ou então fornece educação de ponta (diplomas) para se servir diretamente em suas grandes corporações, servindo um pouco mais diretamente. Os salários pagam as contas e deixam a economia girar.

Na base da pirâmide, quem não nasceu para classe média se vira como pode nas frestas formais e informais do sistema: algum trabalho técnico, trabalhos sem especialização, empregadas domésticas, camelôs, tráfico e o que mais essas pessoas – criativas e ativas por necessidade e natureza – inventarem. Nas grandes metrópoles, o contraste entre essas pessoas e a classe média que a comanda e consome é palpável até para quem não é treinado em antropologia.

É com essas últimas que devemos aprender. Sim, aprender. Ao contrário da expectativa intelectual do século XX, não é a classe média que pode liderar a grande massa até um futuro brilhante de igualdade e liberdade. São os indivíduos dessa massa, tão capazes de construir sua própria política e liberdade em meio às amarras de um sistema que lhes foi imposto, que podem de fato ensinar como a classe média intelectualizada pode sair do imbróglio em que se meteu quando confiou que poderia planejar racionalmente a sociedade através de uma instituição central.

Se se busca uma ação política que vá além do mero baixar a cabeça e solicitar, encarecidamente, que o poder faça uma melhoriazinha aqui e ali no projeto social, é preciso olhar para a favela. A favela não é apenas um paradigma político de um território em que a presença do Estado só se dá como violência, o que pode ser ampliado na cidade; mas é também um exemplo de uma forma de vida que se reinventa e sobrevive na escassez. Porque as pessoas ali não esperaram o Estado construir casas para si, nem conseguiram um trabalho com carteira assinada. Elas construíram, elas se empregaram. E essa é a resposta: construir. Em termos práticos, se queremos um sistema de saúde funcional, vamos ter que juntar todos os médicos e enfermeiros que querem isso, abrir o máximo de hospitais possíveis, ou hackear os existentes (hospitais públicos), e organizá-los de maneira que tanto os médicos, quanto os enfermeiros, quanto os pacientes fiquem todos muito satisfeitos. Não vai dar para pedir pra “reorganizarem o SUS” nas ruas e depois confiar que “ah, algum especialista do Ministério da Saúde vai saber fazer isso”. Porque bem, isso nunca ocorreu. Idem para basicamente todas as outras reivindicações sociais atuais: educação, transporte, moradia, etc, etc, etc.

Claro, o Estado não gosta de concorrência. Muito menos de ter gente resolvendo que “ei, a gente não precisa ficar pagando essa corja para ter as coisas que a gente quer”. Ele precisa de você para poder servir bem seus clientes corporativos e, assim, manter seu poder. Que história é essa de “não vou pagar o dízimo”? E aí as coisas podem ficar bem violentas, de fato. Mas policial também é gente, vive no seu bairro, tem família e usa o SUS. Uma hora vai ficar claro até para ele que dar porrada em gente construindo hospital é completamente imbecil e imoral. O general lá em Brasília que esperneie, mas quando ninguém reconhece a coroa, não tem rei.

Um argumento contrário à produção de espaços comuns sob autogestão é que estes podem ser facilmente massacrados pelo Estado e todo trabalhar ir por água abaixo. Porém, isso também acontece com as conquistas de direitos garantidos pelo Estado quando um outro grupo político assume o poder e acaba com essas garantias.

O que propomos aqui é basicamente que inventemos formas de resolver nossas necessidades materiais diretamente. Produzir nossos próprios ‘direitos’. Isto não é nenhuma novidade no Brasil, mas, a própria forma de viver de muita gente pobre. Veja, por exemplo, este vídeo que fala sobre os “makers da favela”. Outros exemplos que podemos citar aqui são a recuperação da fábrica Flaskô pelos próprios empregados no estado de São Paulo e o Movimento das Comunidades Populares no Rio de Janeiro, que criou um Grupo de Investimento Coletivo, “que, há uma década, reúne 400 investidores da comunidade e mais de vinte membros, que administram um fundo de 700 mil reais. Estes recursos são usados para conceder empréstimos – a maior parte deles, para reformar casas ou gerar rendas familiares ou coletivas”. Este último exemplo é pertinente porque garantir direitos depende de recursos materiais disponíveis. Precisamos pensar formas autônomas de produção de riqueza.

Além destas ações colaborativas, é possível explorar recursos tecnológicos como novos meios de produção. Tal como a internet, os smartphones e notebooks, distribuíram a produção audiovisual. O rap e o funk são exemplos disso. É possível criar produção de outros bens com outros instrumentos tecnológicos. Também por meios naturais, como a agroecologia, para produzir alimentos. Uma ação de esquerda contemporânea deve ajudar a criar e organizar essas novas formas de produção de riqueza e espaços autogestionados.

Pensar essas alternativas, colaborar com elas, investir nelas, não é incompatível com a reivindicação política, claro. O Estado continuará a sugar nosso dinheiro através dos impostos e ele nos deve muito. Mas, hoje com o uso de tantos mecanismos repressivos por parte do Estado (vigilância, violência policial, leis incriminando a ação política como o protesto, etc), é necessário reinventar as formas de ação e pensa-la como reinvenção das próprias formas de vida.

Texto escrito com Uriel Alexis Farizeli Fioli

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