Quase tudo funciona de formas muito parecidas, mas em planos diferentes, como um fractal. O caos do espaço sideral > o caos social > o caos do pensamento. Um planeta é um sistema diferenciado do entorno caótico tanto quanto um sistema de sentido lógico no pensamento. Não existe interior e exterior. As transformações do mundo material são também transformações do pensamento. O mundo está organizado “dentro” de nós através da linguagem, da nomeação, num sistema lógico que produz sentido. As reconfigurações da matéria alteram diretamente a consciência. Tal como a revolução industrial, o desenvolvimento técnico-informacional e uma vida cada vez mais mediada por máquinas nas suas relações com o mundo e com pessoas nos levou a uma forma de percepção e valoração dessas relações muitas vezes norteada pela eficácia. Por exemplo, a forma de se julgar um governo: numa relação política, entre pessoas, devendo funcionar como uma máquina de gestão, o agente é valorado pela sua eficiência de fazer funcionar a ordenação dos comandos e fluxos; se não funciona bem, é jogado fora como uma peça que não funciona na engrenagem.

Numa sociedade de controle e organização máxima de tudo, que administra os fluxos, liberdades e conflitos, colonizando desejos e direcionando decisões mais que disciplinando e reprimindo diretamente, a principal arma de luta contra a ordem pode ser o caos. Desta forma, a esquerda passa ser aquela que produz turbulências para criar liberações e a direita aquela que se defende para manter a ordem, que lhe favorece. Há um tempo atrás, me questionava que o problema da filosofia do final do século XX, o pós-estruturalismo, principalmente, era ter gerado desconfiança demais e não ter sido capaz de produzir uma alternativa de ordem institucional. Hoje me questiono se não seria melhor radicalizar ainda mais a desconfiança, destruir ainda mais os sentidos, produzir mais caos, para se liberar de toda ordem coercitiva. O caos pode multiplicar novas ordens. O caos de uns pode ser a ordem de outros. Da mesma forma que a ação de uma bactéria num ponto específico do organismo humano pode enfraquece-lo ou destruí-lo, também pode ser possível dinamitar as formas de controle (para além do Estado).

O controle não está concentrado só no Estado. A moral também é um sistema de segurança que cria uma territorialização rígida das relações sociais; uma relação com o futuro como contenção de riscos; uma busca de eficácia das expectativas de comportamento. Como o pastor que orienta um jovem dizendo: “procure uma moça recatada e de boa conduta para casar, pois ela não vai te trair nem te abandonar, vai cuidar bem de você e dos seus filhos”. Ou: “se você ficar transando com várias, só vai encontrar garotas que também transam com vários”, como se isso fosse um problema. Qualquer jovem cristão já deve ter ouvido coisas assim. E assim toda libido vai sendo castrada. Riscos são evitados, sim; inclusive o risco de experiências maravilhosas e inesquecíveis.

Libertar-se é também libertar o outro e acolhê-lo em sua contingência. A liberdade baila abraçada ao caos e embebida de contingência, sempre em experimentação. Sua primeira manifestação muitas vezes é a arrogância. A experimentação é acompanhada de estranhamento, que é o sinal de que um desarranjo de sentido foi produzido. Esse caos libera vias para outros territórios. É como a leitura de um pensamento novo, que ao primeiro momento apenas se mostra como se fosse outro idioma, até que produz uma nova linguagem e um novo sistema lógico dotado de sentido. Ou não.

 

tumblr_n2dbl4FTeK1r1d9c0o2_1280Teorema, Pasolini, 1968

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