No seu pequeno livro ‘A identidade cultural na pós-modernidade’, Stuart Hall fala sobre como as compressões, modelagens e remodelagens das relações de espaço-tempo causadas pelas tecnologias e pela globalização têm influências no interior de diferentes sistemas de representação, tendo efeitos profundos sobre a forma como as identidades são localizadas e representadas (Hall, p. 71). Os processos globais afrouxam fortes identificações com a cultura nacional e reforçam outros laços e lealdades culturais “acima” e “abaixo” do nível do Estado-nação (p. 73). “Os lugares permanecem fixos; é neles que temos ‘raízes’. Entretanto, o espaço pode ser ‘cruzado’ num piscar de olhos – por avião a jato, por fax ou por satélite” (pp. 72-73).

Vivemos num tempo de fragmentação dos códigos culturais e referenciais simbólicos. Hall argumenta que, se por um lado vivemos a globalização de determinada localidade, homogeneizando culturas, desintegrando identidades nacionais, por outro também há o reforçamento de identidades “locais” como resistência à globalização. Podemos facilmente perceber isso na cultura brasileira, por exemplo, onde elementos africanos, indígenas, latinos, etc são muito presentes e afirmados nas músicas, formas de vestir, etc. Além disso, os modelos se atravessam formando híbridos.

É importante perceber a desvinculação das identidades contemporâneas em relação a modelos rígidos, como o Estado-nação. Para Hall, “quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares e imagens, pelas viagens internacionais, pelas imagens da mídia e pelos sistemas de comunicação globalmente interligados, mais as identidades se tornam desvinculadas – desalojadas – de tempos, lugares, histórias e tradições específicos e parecem ‘flutuar livremente’. Somos confrontados por uma gama de diferentes identidades (cada qual nos fazendo apelos, ou melhor, fazendo apelos a diferentes partes de nós), dentre as quais parece possível fazer uma escolha.” (p. 75).

Fareed Zakaria, em seu livro ‘O mundo pós-americano’, argumenta que “[…] o Estado-nação é uma invenção relativamente nova; com frequência, não tem mais de cem anos de vida. Muito mais velhos são os grupos religiosos, étnicos e linguísticos que vivem no interior de Estados-nações. E esses laços ficaram mais fortes – cresceram, com efeito – à medida que se aprofundou a interdependência econômica. […] Em boa parte do mundo, essas identidades fundamentais – mais profundas do que o Estado-nação – continuam sendo os traços definidores da vida. É o que determina o voto das pessoas e aquilo pelo qual dão sua vida” (p. 49).

Considerando estes argumentos, podemos pensar que apesar de Omar Mateen ter nascido, estudado e trabalhado nos Estados Unidos, ainda assim, pode ter agido motivado por concepções islâmicas. Pois estes vínculos não necessariamente determinam totalmente a forma como o indivíduo se identifica e percebe a realidade. Num mundo onde as referências estéticas são múltiplas, descentralizadas, facilmente acessíveis e “flutuantes”, a forma como o sujeito constrói a percepção de si mesmo tem mais a ver como ele se posiciona e é posicionado em determinados fluxos de informações e afetos do que sua posição geográfica no globo.

Estes fluxos são desterritorializados do espaço e circulam intensamente por redes globais, como a internet. Assim, qualquer interessado pode facilmente se alimentar deles e construir seu mundo simbólico (e híbrido). Tal como Omar pode ter formado-se como um terrorista islâmico sem a mediação de qualquer instituição vinculada ao “Estado Islâmico”. Coloco-o entre aspas porque os grupos militares islâmicos são muito variados e não um bloco monolítico e único. Há mais separações que sunitas e xiitas, por exemplo. Nenhum deles pode abarcar totalmente o que são os islamismos, tal como nenhuma igreja evangélica hoje no Brasil consegue representar totalmente os protestantismos ou como nenhum partido de esquerda consegue representar as esquerdas.

Zakaria comenta que “[…] alguns líderes ocidentais falam de um único movimento islâmico mundial, juntando absurdamente no mesmo saco separatistas tchetchenos na Rússia, militantes apoiados pelo Paquistão na Índia, senhores da guerra xiitas no Líbano e jihadistas sunitas no Egito. Na verdade, um estrategista esperto enfatizaria que todos esses grupos são distintos, com agendas, inimigos e amigos diferentes. Isso retiraria deles a alegação de que representam o islã […]” (p. 22).

Esta tentativa de constituir um inimigo, definir sua identidade e os limites do seu mundo, é uma tática estatal de justificar o seu terrorismo intervencionista no Oriente Médio, com interesses econômicos e petrolíferos. É uma tática parecida com a que o Estado brasileiro usa para dissipar seus “inimigos internos”: os vândalos, os traficantes, etc, justificando o genocídio policial nas favelas e as repressões violentas aos protestos sociais nas ruas.

Contudo, isto não quer dizer que o massacre praticado por Omar não tenha nenhuma motivação homofóbica. O problema é que os afetos se atravessam. Não dá pra dizer que ele seja só um fundamentalista islâmico tanto quanto não dá pra dizer que ele seja só um americano homofóbico. Tampouco essas questões retiram o peso da existência da homofobia e suas consequências violentas. Afinal, atacar especificamente uma boate gay não seria à toa. Mas, sendo que a denúncia da homofobia já está afirmada na maior parte das considerações sobre o ocorrido, não a repeti aqui e tentei mostrar outras nuances que atravessam o problema.

 

Referências bibliográficas:

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 10ª ed. 2005.

ZAKARIA, Fareed. O mundo pós-americano. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

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