Com o avanço de tendências conservadoras e fascistas na sociedade, muitos de nós, que queremos uma transformação do estado de coisas, somos muito afetados pelo niilismo na política. E talvez até cultivamos esse niilismo, damos espaço pra isso e deixamos que isso paute nossa perspectiva da situação. Vemos os comportamentos e discursos de militantes nas redes sociais, nas universidades, nas ruas, e de repente percebemos que não acreditamos mais naquilo. Vemos e não vem mais aquela fagulha de possível que nos faz enxergar um novo caminho. Por exemplo, talvez seja comum a muitos perceber isso em relação à militância partidária, quaisquer que seja o partido. Ela é sempre bastante identitária e está a todo momento tentando proteger seu projeto, mesmo quando ele já parece capengar. Logo, na possibilidade de tal partido chegar ao poder, é provável que essa militância, que tanto criticou o governismo em outros movimentos, vai repetir o mesmo comportamento.

Porém, o niilismo não é de todo ruim. Pode ser bom para se desvencilhar de velhas expectativas em formas, práticas e discursos que já não funcionam mais. O problema é quando depois disso não suportamos o vazio que se abre. A desidentificação expandida. E é muito difícil desapegar das referências e caminhar sobre o caos. Reorganizá-lo numa outra forma possível de estar no mundo. A liberdade é sempre experimental e meio desajeitada até que acerte o passo. É muito mais fácil aderir a uma outra identidade estabelecida e seguir seu fluxo. E sabemos da dificuldade temporal que todos temos para explorar informações e fazer apostas. Principalmente quem encara diariamente uma jornada de trabalho de 8 horas diárias, mais transporte, filhos, estudos, etc. Assim, parece impossível a construção deste outro mundo que queremos. Desconhecido, mas possível.

O capitalismo coloca todo seu exército global para trabalhar diariamente em longas jornadas, cada vez mais próximo de um funcionamento em 24 horas diárias nos 7 dias da semana. Quando não estamos trabalhando, estamos buscando mais qualificações para trabalhar, já que hoje a formação é permanente e infinita. Nossos próprios sonhos muitas vezes coincidem com os percursos do capital. Até a produção pré-individual, o nosso inconsciente, as associações semióticas que fazemos sem perceber, todo esse imaginário está atulhado de aparelhos e dispositivos de que o sistema precisa e suga. É um investimento na subjetivação dos indivíduos, que são bombardeados a todo momento por informações, propagandas, ordens que lhes conformam ao mundo do capital. Toda a vida se tornou subsumida ao capitalismo e não há mais fora, de maneira que o tempo de trabalho vai muito além da jornada de trabalho. E nós, que temos basicamente nosso corpo para investir, mesmo que sob disputa, sabemos o quão é difícil achar tempo no meio de tudo isso para organizar espaços onde podemos compartilhar os diversos afetos, inventar nossos instrumentos estéticos de resistência, manifestar coletivamente nossa indignação e desejos, etc. E com o tanto de pautas e acontimentos e tragédias a todo momento, não dá para dar conta de tudo.

Nesse contexto de controle e disciplina do uso que fazemos do tempo e do corpo, a resistência contra o capitalismo é uma luta por temporalidade, o que não se separa da corporalidade. Afinal, é no corpo que criamos nossas temporalidades e contra (ou apesar de) relógios e calendários que experimentamos nossos corpos. E talvez seja necessário dizer que experimentação do corpo, não se trata só de sexualidade, mas, de tudo que fazemos. Seja estudar, dançar, aprender tocar um instrumento, ir ao cinema, conversar, enfim, tudo passa pelo corpo. E nosso corpo-tempo está cada vez mais imbricado nos circuitos capitalistas e nossa sobrevivência também depende disso. Não é simples aderir uma prática ascética e “sair” destes circuitos. E pior ainda quando esse ascetismo vira uma moralidade sob custódia de santos guardiões. Tampouco isso é pragmaticamente capaz de transformar as formas institucionais que organizam a sociedade, se for uma prática meramente individual.

Realmente precisamos de uma articulação coletiva para criar novos circuitos que desestabilizem o controle social das instituições do Estado capitalista e que consigam também criar mais descentralizações de poder. Não necessariamente por um coletivo centralizado e coordenado, mas, precisamos de cooperação coletiva para criar novas dinâmicas sociais. Podemos pensar a organização coletiva como propõe o Comitê Invisível em seu livro-manifesto “Aos Nossos Amigos – Crise e Insurreição”: “Se organizar nunca quis dizer se filiar a uma mesma organização. Se organizar é agir segundo uma percepção comum, em qualquer nível que seja” [1].

Os processos de insurreições, ocupações principalmente, são interessantes porque criam uma outra forma de uso do tempo. É um investimento de tempo numa outra forma de vida. É uma recusa da forma de viver capitalista. É também uma intervenção direta na forma de produzir e organizar nossa vida coletiva. E uma relação política com o Estado, no sentido coletivo-institucional-organizacional, pautada na recusa, no protesto, na desobediência.

Além de controlar a temporalidade social, o capitalismo também controla o espaço e as formas de circular nele. Não só controla, mas cria os espaços determinando em quais lugares se acumulam mais capitais fixos em detrimento de outros lugares; determina e/ou controla quem acessa esse ou aquele lugar; transforma as paisagens e os lugares onde nos movimentamos e existimos. As ocupações, por sua vez, conseguem subverter as lógicas de uso desses espaços e reinventá-los, revalorizá-los, desoligopolizá-los, democratizá-los. Como aconteceu com as ocupações de escolas públicas em São Paulo, Rio de Janeiro e Goiás.

Estas subversões criativas do espaço-tempo têm a capacidade de vencer o niilismo e gerar esperança não só naqueles que vivenciam diretamente os acontecimentos, como também em quem consegue perceber a potência destes eventos. A transformação objetiva e material do espaço-tempo cria novas condições de imaginação. Como disse Peter Pál Pelbart na sua carta aos secundaristas de São Paulo:

“Mas posso dizer, desde fora, que vocês operaram um corte na continuidade do tempo político. Isto significa que a percepção social e a sensibilidade coletiva na cidade de São Paulo sofreu uma inflexão. É toda a dificuldade de uma ruptura: ela não pode ser lida apenas com as categorias disponíveis antes dela, categorias essas que a ruptura justamente está em vias de colocar em xeque. A melhor maneira de matar um “acontecimento” dessa ordem é reinseri-lo no encadeamento causal, reduzindo-o aos fatores diversos que o explicariam e o esgotam, ao invés de desdobrar aquilo que eles trazem embutido, ainda que de modo balbuciante ou embrionário, de novo, de inaugural, de fundante” [2].

Outro exemplo de reinvenção do uso de espaços são as cooperativas que buscam resolver os problemas de suas comunidades de forma direta, imediata e autônoma (o que também aconteceu nas escolas ocupadas). Neste caso, muitas vezes não é só a reinvenção do uso dos espaços, mas também a criação e/ou transformação de novos espaços. Como aconteceu no município de Barra Mansa no Rio de Janeiro, em que a população deixou de esperar que a prefeitura consertasse a ponte que ligava os bairros Nova Esperança e São Luiz e reuniu um mutirão que construiu a ponte com um gasto muito menor do que foi orçado pela prefeitura. Gastaram em média de R$5.000,00 reais, enquanto a prefeitura orçava o projeto em R$270.000, 00 reais [3].

É importante perceber que esses métodos de ação coletiva propostos aqui não são necessariamente sinônimo de recusar qualquer apoio do Estado, se ele não querer que se dê a bunda em troca. Nem quer dizer deixar de protestar e fazer manifestações (os estudantes das escolas ocupadas não deixavam de se manifestar), afinal pagamos impostos coercitivamente e queremos um retorno disso. Adotar estes métodos também não quer dizer que não se vote quando for interessante fazê-lo. Sejamos pragmáticos. Num pragmatismo que tensione o real até seu limite de possibilidade. Lembrando Brecht, só está vivo o que está cheio de contradições. Ter em consideração um príncipio de coexistência das formas e ideias. As coisas não se anulam. Que se anulam podem ser as identidades e identificações. Estas são castelinhos que poderiam desmoronar para dar lugar ao “ser-qualquer”, que se vincula pelo desejo, como diria Agamben sobre “A comunidade que vem” [4].

 

NOTAS:

[1] Comitê Invisível, Aos Nossos Amigos – Crise e insurreição. São Paulo: N-1 Edições, 2016, p. 18.

[2] http://outraspalavras.net/brasil/pelbart-tudo-o-que-muda-com-os-secundaristas/

[3] http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2016/06/14/rj-em-mutirao-moradores-constroem-com-r-5000-ponte-orcada-em-r-270-mil.htm

[4] Giorgio Agamben, A Comunidade que Vem. Lisboa: Editorial Presença, 1993, p. 11.

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