Nota sobre aceleracionismo vs. decrescimento

O capitalismo não precisa de impulso pra ser acelerado. A aceleração já é sua tendência própria. Disputar o controle dos vetores dos fluxos, ou em outras palavras, “planificação”, “intervenção estatal”, é uma proposta molar que tenderia facilmente ao autoritarismo. É o caso do aceleracionismo de esquerda proposto no manifesto #accelerate de Nick Srnicek e Alex Williams. O aceleracionismo de direita, proposto por Nick Land, poderia servir para criar fluxos alternativos e descentralizar as fontes. Mas, o capitalismo vai continuar como uma máquina mundializada que, casada com a Terra, incluindo-a, se torna autofágica; tende à própria ruína e nessa leva vamos junto. O que já está acontecendo com o aquecimento global, catástrofes climáticas, secas, extinções (como a dos índios no Brasil que agora somam apenas 0,47% da população brasileira, além de outras espécies animais).

O capitalismo é um sistema que está em constante atualização. Porém, não se deve pensá-lo como algo homogêneo dotado de vontade. Quem o reinventa são seus agentes. Estados e empresas multinacionais, principalmente. Mas a sua reinvenção é a reinvenção das formas de controle, dominação e exploração. É um modo de produção e organização da sociedade que, de fato, não deu certo. Gerou benefícios ínfimos diante da devastação e destruição de ecossistemas e países do sul global. E está levando o planeta a um ponto-limite de sua existência. Até liberais capitalistas reconhecem esses danos, apesar de insistirem que é ainda é o melhor modelo econômico. Por exemplo, Fareed Zakaria, cientista político de Harvard, no seu livro “O Mundo Pós-Americano”, que vendeu centenas de milhares de exemplares.

Então, o decrescimento é uma proposta melhor para aqueles que buscam liberar as formas de vida do controle capitalista. Mas, não deve ser pensando enquanto mera resistência e negatividade. Apesar de que em muitos pontos o decrescimento vai ser um movimento de oposição, como na preservação de florestas e comunidades tradicionais que tem a natureza como sua cultura. Mas, indo além disso, sua positividade se dá em uma construção de relações e vínculos comuns e locais. Num mundo já globalizado em que as redes de poder já transcenderam o Estado-nação (FMI, Banco Mundial, empresas multinacionais, etc), quando já está sendo pensada por vários autores uma globalização alternativa, isso pode combinar com cidades-Estado interconectadas. Algumas correntes contemporâneas de pensamento político, como a Neo-reaction nos EUA, já propõe uma forma de neofeudalismo. Mas, as cidades-Estado já existiam muito antes dos feudos. Não se pode confundir uma coisa com a outra. Uma forma mais radical de federalismo em que as cidades ganham mais autonomia, mas não deixam de estar conectadas em rede, poderia viabilizar uma forma de democracia mais radical porque o exercício do poder sobre a vida fica mais próximo geograficamente dos sujeitos a este poder. No mínimo, a “Bastilha” ficaria mais próxima para ser tomada.

Outro debate que se coloca entre aceleracionismo e decrescimento está relacionado ao desenvolvimento técnico. Um debate que já conta décadas. Não sendo mais possível retroagir quanto aos avanços tecnológicos, o que não é nem uma boa ideia, é o caráter da ciência que deve mudar. A ciência deve ser outra e atualizar e criar uma forma/técnica de produção (mais) autopoiética, que consiga se retroalimentar, produzir sua própria matéria-prima, mais tecnologia de reciclagem, e interferir o menos possível na natureza.

Deixo aqui o link para o blog do pesquisador Ednei de Genaro que traz abordagens mais profundas sobre essa questão: “Politizando as tecnologias”

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