“Transformai as velhas formas de viver”

salviati

           Francesco Salviati, Kairos und Ignudo (Sala dell’Udenzia invernale), 1552-1554,  Roma

Que a Igreja e os cristãos fabricaram um novo sagrado, esmagaram os homens, aprisionaram o homem na culpabilidade, foram reacionários e desenvolveram o poderio, formularam os piores dogmatismos, protegeram as injustiças, combateram a verdade, fizeram viver o homem num idealismo enganador (…). É a transformação de Jesus Cristo em cristianismo, da relação fraterna em instituição, da revelação em religião, da palavra em coisa, é a tomada de posse daquilo que não nos pertence. É a instalação enquanto estávamos a caminho. Isto é o que deveria ter sido questionado e obtido vitória sobre o que caracteriza nosso mundo foi finalmente subordinado ao espírito deste mundo, o poderio, o sucesso, o dinheiro, a eficácia e ao mesmo tempo o desespero. Mas precisamente, ainda que tenha sido assim, porque a esperança cristã está no âmago da verdade cristã, respondo simplesmente: “Não é obrigatório que seja sempre assim”, Jacques Ellul, Mudar de Revolução, p.279, 280.

I

Quando Jesus começou sua peregrinação, anunciava que o reino de Deus já estava presente na história e convidava as pessoas para se arrependerem, passando a viver de forma comprometida com a justiça e a realidade deste reino. Uma justiça que excedesse a lei judáica, aquela dos escribas e fariseus (Mateus 5.20). Para Derrida, a “justiça é o que nos dá o impulso, a direção, ou o movimento para retificar a lei, ou seja, para desconstruir a lei” (DERRIDA apud HADDOCK-LOBO, 2006). “Justiça” enquanto “relação com a alteridade que transcende o simples pacto acordado pelo dever, que ultrapassa o ter-que-ser da lei, a força imposta” (ibid, 2006).

Portanto, não era um convite para confessar um credo, mas para assumir uma postura de fé. Jacques Ellul diz que a “a fé não é nem crença nem credulidade. Não é uma aquisição razoável nem um feito intelectual; é mais a conjunção de uma decisão definitiva com uma revelação, e convida-me a efetuar hoje a encarnação da realidade última, o Reino de Deus presente entre nós” (ELLUL, 1983). A caminhada de Jesus foi uma busca para formar comunidades em torno desta proposta.

A experiência das primeiras comunidades cristãs é narrada no livro de Atos dos Apóstolos, escrito por Lucas, um médico grego que viveu na cidade grega de Antioquia no primeiro século pós-Cristo. Lucas descreve uma comunidade que partilhava seus bens, levavam uma vida em comum e se ajudavam mutuamente (Atos 4.32). Estas comunidades eram perseguidas pelo Império Romano e muitos dos primeiros cristãos foram assassinados e torturados cruelmente. Devemos ter em mente ao ler o Novo Testamento que naquela época religião e política não se separavam. O imperador era a representação máxima da divindade na Terra. Portanto, formar comunidades religiosas alternativas era também formar uma outra comunidade política. Isto significava desestabilização do poder imperial. Por exemplo, a crucificação, método inventado pelos persas entre 539 e 533 a.C. e popularizada pelos romanos, era utilizada para punir escravos rebeldes, criminosos violentos e subversivos políticos. Ora, sabe-se que Jesus não era escravo nem um criminoso violento.

Tanto Jesus quanto Paulo ou outros apóstolos conheciam muito bem os livros que depois passaram a formar o Antigo Testamento e que registram a história da formação da nação de Israel. A Torá e os livros dos profetas. A gênese da história do povo israelita é marcada por uma vivência comunitária desde os patriarcas (Abraão, Isaac, Jacó), passando pela escravidão do povo pelo Império Egípcio, a libertação da escravidão (Êxodos) e a peregrinação no deserto em luta por uma terra fértil onde pudessem viver (Canaã). Milton Schwantes diz no seu livro ‘Breve História de Israel’ que os povos que vieram a formar a nação israelita viviam em comunidades nas montanhas, lideradas por juízes (vide o livro de Juízes na bíblia), que inclusive poderiam ser mulheres, como Débora, que foi juíza por volta do século XII a.C (Juízes 4-5). Durante toda sua história, estas comunidades estavam sempre resistindo à ataques de impérios que tentavam escravizá-las e posteriormente foram escravizadas por diferentes impérios, como os assírios, babilônicos, persas e romanos. Durante cada um desses diferentes períodos de dominação imperial, profetas, que muitas vezes eram líderes tribais, denunciavam as injustiças que existiam na comunidade e atos injustos dos príncipes e imperadores. Mesmo antes da instituição do reino de Israel sob o reinado de Saul em torno do século X a.C., os profetas já denunciavam a instituição de um reinado e a opressão que viria com ele:

E falou Samuel todas as palavras do Senhor ao povo, que lhe pedia um rei.
E disse: Este será o costume do rei que houver de reinar sobre vós; ele tomará os vossos filhos, e os empregará nos seus carros, e como seus cavaleiros, para que corram adiante dos seus carros.

E os porá por chefes de mil, e de cinqüenta; e para que lavrem a sua lavoura, e façam a sua sega, e fabriquem as suas armas de guerra e os petrechos de seus carros.

E tomará as vossas filhas para perfumistas, cozinheiras e padeiras.
E tomará o melhor das vossas terras, e das vossas vinhas, e dos vossos olivais, e os dará aos seus servos.

E as vossas sementes, e as vossas vinhas dizimará, para dar aos seus oficiais, e aos seus servos.

Também os vossos servos, e as vossas servas, e os vossos melhores moços, e os vossos jumentos tomará, e os empregará no seu trabalho.

Dizimará o vosso rebanho, e vós lhe servireis de servos.

Então naquele dia clamareis por causa do vosso rei, que vós houverdes escolhido; mas o Senhor não vos ouvirá naquele dia.

1 Samuel 8:10-18

A história do povo de Israel era marcada pela esperança de que um Messias iria libertar o povo de todo domínio imperial; o filho de Davi, sendo Davi o guerreiro que conseguiu derrotar Golias, o gigante do exército filisteu, depois nomeado rei, quem unificou a nação israelita entre os anos 1003 a 970 a.C., expandiu os territórios e trouxe prosperidade a Israel.

Jesus, Paulo e os apóstolos estudaram essa tradição judáica e conheciam toda essa história, a luta desses povos e seu desejo por libertação política. Inclusive alguns discípulos, como Pedro, eram zelotas. Os zelotas eram um movimento político do século I a.C. que incitava o povo da Judeia a lutar contra a dominação romana pela força das armas. Levantes populares eram muito comuns naquela época, como apresenta o teólogo americano Richard Horsley nos livros “Jesus e o império – O reino de Deus e a nova desordem mundial” e “Bandidos, Profetas e Messias – Movimentos populares no tempo de Jesus”, ambos publicados pela editora Paulus no Brasil. Mas, para Jesus e os apóstolos, não bastava se libertar da dominação de Roma, a vida também tinha que ser livre, as relações sociais deveriam ser transformadas. A encarnação desta ética por Jesus e os apóstolos marcaram a história do que depois viria a ser o Ocidente global.

II

A reflexão que proponho aqui não tem a pretensão de fazer qualquer tipo de apologética política do cristianismo. Mesmo que a bíblia contenha livros que são muito importantes para mim e que inspiraram toda minha vida. Afinal, cresci numa família evangélica, frequentando a igreja, lendo a bíblia desde criança e foi neste meio que também iniciei uma caminhada de militância e busca por outra forma de vida libertária. Meu interesse sobre estes textos bíblicos se dá quanto à descrição histórica de comunidades que assumiram uma postura radical diante do seu tempo e passaram a viver de forma mais solidária e coletiva. Penso que o cristianismo institucionalizado não tem mais nada a ver com essa história, além de ser, na maioria das vezes, um empecilho para o florescimento destas comunidades. Creio também que comunidades libertárias existiram sob diversas outras formas durante a história e ganharam outros nomes. Mas, dada a minha formação no contexto cristão, tive mais proximidade das histórias registradas nos livros que compõem a bíblia.

O que quero trazer de reflexão a partir das histórias dos primeiros cristãos é a experimentação imediata do tempo porvir. As primeiras comunidades cristãs não apenas resistiam e denunciavam as opressões políticas, mas também buscavam inserir na história, de forma encarnada e vivencial o que anunciavam. A radicalidade com que assumiam isto transformava a forma como percebiam o tempo. Isto por sua vez, transformava a forma como viviam. Como Paulo escreve para a igreja de Coríntios:

Uma coisa eu digo a vocês, irmãos: o tempo se tornou breve. De agora em diante, aqueles que têm esposa, comportem-se como se não a tivessem; aqueles que choram, como se não chorassem; aqueles que se alegram, como se não se alegrassem; aqueles que compram, como se não possuíssem; os que tiram partido deste mundo, como se não desfrutassem. Porque a aparência deste mundo é passageira.

1 carta aos Coríntios 7.29-31

Refletindo a partir desse texto, Agamben comenta que “o tempo do Messias, como veremos, não é um período cronológico, mas sobretudo uma transformação qualitativa do tempo vivido”. Ele diz que o tempo messiânico…

É um tempo que pulsa dentro do tempo cronológico, que o trabalha e o transforma a partir de dentro. É, de um lado, o tempo que o tempo emprega para terminar; de outro, o tempo que nos resta, o tempo do qual precisamos para fazer o tempo terminar, para atingir a meta, para nos libertarmos da nossa representação ordinária do tempo. Enquanto esta última, enquanto tempo dentro do qual acreditamos estar, nos separa daquilo que somos e nos transforma em espectadores impotentes de nós mesmos, o tempo do Messias, ao contrário, enquanto tempo operativo (kairós) no qual compreendemos pela primeira vez o tempo (o chronos), é o tempo que nós mesmos somos. É claro que esse tempo não é um outro tempo, que teria o seu lugar em algum outro lugar improvável e venturo. É, pelo contrário, o único tempo real, o único tempo que temos, e fazer experiência desse tempo implica em uma transformação integral de nós mesmos e do nosso modo de viver (AGAMBEN, 2013).

Para aprofundar a ideia do que se está chamando de kairòs, é interessante a descrição que  Antonio Negri faz:

Kairòs é, na concepção clássica do tempo, o instante, ou seja, a qualidade do tempo do instante, o momento de ruptura e de abertura da temporalidade. É um presente, mas um presente singular e aberto. Singular na decisão que ele exprime a propósito do vazio sobre o qual se abre. Kairós é a modalidade do tempo através do qual o ser se abre, atraído pelo vazio que está no limite do tempo, e decide preencher este vazio. Podemos dizer que, no kairòs, nomear e coisa nomeada chegam, “ao mesmo tempo”, à existência, e que são, portanto, exatamente “isto aqui”? (Negri, 2003)

Para os judeus e cristãos, o tempo que se faz presente no kairòs é o reino de Deus. Para os libertários, o que também inclui muitos cristãos e judeus, seria o comunismo, o anarquismo, enfim, a libertação das comunidades humanas e não-humanas do julgo imperial; da sujeição aos moldes capitalistas; das opressões nas relações sociais; do consumo desenfreado; etc. Mas, estas transformações não acontecem apenas com mudanças nas formas como a sociedade está organizada institucionalmente, mas, também nas formas como vivemos. Se as formas institucionalizadas da sociedade não podem mudar da noite pro dia, não devemos ficar à espera da “parousia” revolucionária a ser realizada quando um messias populista chegar ao poder do Estado. Nossa luta pode ser ampliada para uma forma de vida que antecipa o porvir, com um novo uso dos bens e objetos, uma outra forma de se relacionar e perceber o outro, uma outra forma de resolver os conflitos que não precise mais do Direito e do Estado, quem sabe até conseguimos construir cooperativas onde podemos ter uma outra forma de trabalho que não aquela subjugada pelo salário e disciplinada pela jornada de trabalho.

Negri diferencia o porvir do que chamamos de futuro, argumentando que “futuro” é um nome mistificado e errôneo, enquanto o porvir é um horizonte de experimentação, um sobressalto criativo. Com a passagem ao porvir, “a repetição, e com ela a duração, é desestruturada pela experiência atual do porvir, e o real, é, assim, novamente compreendido no fazer do kairòs” (NEGRI, 2003).

Hoje a realidade da esquerda institucionalizada é a submissão às regras impostas pelo modo de fazer política estabelecido. Não falo apenas das regras jurídicas e institucionais que regem os partidos e as ações políticas, mas também das prioridades e urgências, ou seja, das temporalidades que são determinadas pela política governamental. Um pragmatismo estéril que ignora e muitas vezes condena todas as práticas que passam à margem dos seus métodos; que tem a arrogância de dizer o que deve ou não ser pensado, debatido, praticado no momento. “Não é hora disso. O momento é de…”. Pior que isso, ‘ser de esquerda’ parece ter se tornado uma confissão ideológica e identitária. Defesa de um ideal e não experiência material de luta. Crença e não Fé. Porém, o que é capaz de criar outra via está na exceção da Lei. Não só da lei jurídica, mas de todas as outras normatividades que constituem os modos de viver e usar o tempo. Ou seja, desde o Direito até a jornada de trabalho, a rotina, a moral, etc. Revolução hoje é a profanação do proibido. E o que nos motiva a correr esse risco a não ser um ato de amor? Um amor que “[…] não é infinito, mas eterno; não é medida, mas desmedida; não é individual, mas singular; não é universal, mas comum; não é substância da temporalidade, mas a própria flecha do tempo” (NEGRI, 2003).

Precisamos resgatar toda a potência política da palavra “amor”. Subverter seu sentido moral-piedoso-católico e carregá-la de sentido ético libertário. Isto em direção ao estabelecimento de alteridades profundas, capazes de criar vínculos socioafetivos, convergências colaborativas, mutualismos e de destruir individualismos para preservar individualidades. Fazer do amor uma luta de reinvenção constante das sociabilidades e das formas sociais. O maior desafio talvez seja o de superar o medo do amor. Pois não se pode exigir o amor. Só é possível em liberdade e só é real quando produz liberdade do amado. O outro liberto é sempre o outro que nunca é o outro que quero que seja e por isso, outro. Não se sabe o que esperar. Puro risco. Não segue o que eu acredito que deveria seguir. Mas são muitos os momentos de encontro em que se anda junto por um trecho do caminho. Um amor que se controla pra descontrolar o outro e por ser amado perde o controle e sem controle teme por nunca ter andado só e de porrada em porrada aprende e aprende a não ter medo de de ser livre de novo e de novo e de novo amar. E como Gilberto Gil perceber que “tudo agora mesmo pode estar por um segundo”.

 

Referências bibliográficas

AGAMBEN, Giorgio. Cristianismo como religião: vocação messiânica. Tradução de Moisés Sbardelotto. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2013/07/16/cristianismo-como-religiao-a-vocacao-messianica/. Acesso em: 25 de setembro de 2016.

Bíblia Sagrada. Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 2002.

ELLUL, Jacques. Mudar de revolução: o inelutável proletariado. Rio de Janeiro: Rocco, 1985.

ELLUL, Jacques. Fé e Crença. Tradução de Paulo Brabo. Disponível em: http://www.baciadasalmas.com/fe-e-crenca/. Acesso em: 27 de setembro de 2016.

HADDOCK-LOBO, Rafael. Da Existência ao Infinito: ensaios sobre Emmanuel Lévinas. São Paulo: Loyola, 2006.

HORSLEY, Richard. Jesus e o império: o reino de Deus e a nova desordem mundial. São Paulo: Paulus, 2004.

HORSLEY, Richard. Bandidos, profetas e messias: movimentos populares no tempo de Jesus. São Paulo: Paulus, 1997.

NEGRI, Antonio. Kairòs, Alma Venus, Multitudo: nove lições ensinadas a mim mesmo. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2003.

SCHWANTES, Milton. Breve história de Israel. São Leopoldo: Oikos, 2008.

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