Nota intempestiva, ato da Greve Geral, 28/04

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O que primeiro me queimou os olhos talvez tenha sido quão alto subiu a labareda de uma cesura. Um traço entre os que brincavam com fogo e os que desejavam água, mais água, as águas de um afogamento, que lavasse os mascarados de sua anormalidade. “A luta de verdade é aqui. Vocês tem que se juntar à nós”, ouvia-se do palco enquanto a praça ainda não se convertera totalmente num palco de guerra. Percebi então quão ilegíveis eram os signos da velocidade. Cada bomba que explodia era o grito de um passado que nos fazia fugir em direção a um futuro cada vez pior. Os olhos agora queimavam com o gás lacrimogênio. As explosões insistiam em lembrar minha incapacidade de alcançar o presente. Quiçá era possível enxergar uma saída além daquela a que nos empurravam. Logo, não havia possível. O possível não era mais que uma única realidade já dada que nos forçavam a viver e correr para ela como ratos para a ratoeira. Mas as bombas, o passo lento do policial levantando a arma e apontando em nossa direção, três helicópteros iluminando nossas cabeças e ofuscando ainda mais o brilho de qualquer estrela, que assim como o estrondo das bombas também era uma insistência do passado, tudo isso me fazia perceber que meu corpo era uma dobradiça entre a lentidão do meu pensamento e as velocidades intensas da realidade. O que eu conseguisse fazer ali não seria em termos de inteligência. O meu aparelho sensório-motor era lento e todo recorte que fazia para pensar uma ação já não me servia mais. Eu era forçado a pensar um pensamento que não era meu e que nenhuma voz sussurrou ao vento. Entre todos os estímulos a que era exposto meu corpo – não se tratando de teoremas com respostas dadas, mas de problemas a serem colocados e avaliados quanto a essa colocação – a escolha que fiz foi fugir para dar mais condições corporais, portanto, temporais de complexificar melhor o intervalo entre os estímulos e as possíveis respostas. Ou seja, pensar e pensar como um baterista de jazz tirado da plateia de forma inusitada para tocar com uma banda desconhecida uma música que nunca ouviu; pensar por tendências e se relacionar com outras frequências.

A sordidez do conteúdo desses dias maquinais

Introdução aos poemas publicados na R. Nott Magazine

Alugar o corpo para um poema. Pagar o aluguel do próprio corpo com um poema. O poema como um outro regime corporal. Um outro corpo. Não um outro ‘eu’, mas um outro. Escrever poemas como se arranca costelas para germinar o pecado no mundo. Não o pecado, mas a possibilidade de conhecer o inviolável e possibilitar mil outras experiências. Os riscos da novidade ou uma monotonia eterna. O estrago feito pelo poema me tirou de um paraíso, paradeiro, paralisia. Não havia mais mundo, mas outros mundos se recompondo e se destruindo a todo momento. Se eu tivesse me rendido àquela alegria original da brisa suave de um poema, nunca teria escrito mais do que marcas de morte fantasiada de vida. Os poemas produzem oxigênio e é possível respirar com eles. É possível mastigá-los. É possível responder as acusações com poemas e assim não respondê-las. “Meu corpo”, Artaud, “meu corpo”, a questão que se coloca, “no meu corpo não se toca nunca”, para acabar com o julgamento de Deus. E é preciso destruir-se como ‘eu’ para realmente encontrar a solidão. A possibilidade. A possibilidade. A possibilidade. Os possíveis. Os possíveis. Os pus os pus os pus & foi isso a poesia. Não foi nunca. Nunca houve. Eu escrevi trezentos poemas. Eu apaguei muitos. Eu apaguei. Eu apaguei eu e e e à cada poema. Escrevi esse texto em torno de outubro de 2015: O texto do fim do texto: A escrita diante do espelho. A escrita contra si. Um perspectivismo e um multinaturalismo de si. São os mundos que são outros e não as formas de significa-los, como na metafísica canibal de Eduardo Viveiros de Castro. Foi naquele ano foi o ano que li quase tudo de Waly Salomão ouvindo Jards Macalé. Foi o ano que conheci o Pércio e conhecer o Pércio foi como ter um encontro com Cristo. A poesia tirou a religião de mim para que eu pudesse encontrar a fé. Foi o ano que fiz minhas primeiras aventuras no Rio de Janeiro. Agora eu moro no Rio de Janeiro e parece que This must be the place: home is where i want to be. Em 2015 eu ainda estava em Uberaba. Não suportava mais a faculdade e só queria terminar logo aquilo e vazar. Cada poema que eu escrevia era uma forma de dar essa vazão. Em 2015 eu desisti de publicar um livro e apaguei mais de 80% de tudo que havia escrito. Foi com o Pércio que conheci Artaud, Lautreamont, Herberto Helder. Citação: Poemacto IV, de Herberto Helder. Eu já era apaixonado por Fernando Pessoa. O poema ‘Tabacaria’ do Álvaro de Campos foi um dos maiores rasgos de 2013. Uma outra vida começou ali & era escabroso. Não houve coisa melhor do que se permitir algumas doses de caos & foi horrível & foi maravilhoso. Em 2015 eu conheci o Nícollas Ranieri. O Nícollas foi uma escola sem paredes. Não havia quadro negro. Por mais que fosse negra a nuvem que já cobria o céu. Parecia que eu só tinha a poesia contra o mundo, mas tive o Nícollas também. E aqueles terzinhos quando aconteciam me permitiam continuar quebrando mato. Dentre os rasgos de junho de 2013, eu já lia os textos do Bruno Cava e foi também em 2015 que o conheci na minha primeira viagem ao Rio. A poesia sempre foi um exercício de exploração nas bordas do pensamento. A dobra. Cadê a dobra? Caía-se em outro lugar. Na minha primeira semana morando no Rio fui nas primeiras aulas dos cursos do Bruno sobre os Mil Platôs de Deleuze e Guattari e sobre Henri Bergson e Deleuze. Eu consegui respirar ali. Era possível dar risada. Eu odeio o fato de que a edição brasileira dos Mil Platôs é dividida em 5 volumes. No volume 2 li sobre as máquinas de enunciação que provocam as transformações incorpóreas das coisas do mundo. Não era sobre o mundo que se escrevia. A poesia cria seus outros mundos deste mundo. Se é que se pode falar de “este”. Se é que se pode falar. A poesia foi então a possibilidade de continuar falando e de poder dizer algo e acreditar que algo realmente estava sendo dito; de que havia um dizer que era já um dito. Mil ainda é um número muito pequeno. Eu quero poder pensar números tão grandes quanto pensou Srinivasa Ramanujan. Os cálculos dele são usados para analisar o comportamento dos buracos negros. A poesia produz buracos negros. Especula possíveis conexões com outros espaços-tempos. “Poesia: procura de um agora e um aqui”, Octavio Paz, O arco e a lira. É aqui e agora que eu posso estar em outro tempo e em outro lugar. Foi abismante quando soube que Pasolini era realista. Não sabia que a realidade podia tanto. A poesia como prática de tensionar os limites. O limite a lide do possível. Em 2016, quando tantos mundos acabaram para tanta gente, inclusive para mim, aprendi a acreditar de novo. E é preciso acreditar nas coisas para vivê-las. Neste sentido, o milagre é possível. Me interessam agora os textos que conseguem multiplicar os pães e transformar água em vinho. Tornar a vida possível. Resistir contra os tribunais da má consciência e suas crateras de ressentimento.

Monstros do Niilismo: Nick Land

Em 8/2, ocorreu a segunda edição Monstros do niilismo, a partir do pensamento do filósofo inglês Nick Land. Uriel Fiori palestrou sobre Land com foco nos dois livros publicados pelo autor, seguido de debate. Abaixo, Bruno Cava introduz o professor de Warwick e eu faço um comentário crítico da palestra.

Remix cyberdark

Nick Land (1962) é uma figura única entre únicos. Misturando filosofia, cibernética, euforia gótica pelo abstrato e ficção cataclísmica, o professor de Warwick catalisou ao seu redor um coletivo de aceleracionistas, o CCRU (Unidade de Pesquisa de Cultura Cyberpunk), formado em 1995, que exalou uma aura de vanguarda ontológica e atrai espíritos dissidentes sui generis até hoje, por exemplo, em meio aos neomaterialistas do realismo especulativo. Com títulos indefectíveis para os seus livros, como Sede de aniquilação: Georges Bataille e niilismo virulento (1992) ou Númenos com presas (coletânea publicada em 2011), Land retoma conceitos de Deleuze e Guattari, como a desterritorialização e aqueles derivados da virada maquínica, para propor um aceleracionismo fundamentalista estritamente construído sobre a linha dos anjos exterminadores do niilismo ocidental, como Nietzsche, Bataille e o próprio trecho aceleracionista do Anti-Édipo (D&G, 1972). Isso, contrasta, sem dúvida, com toda a fauna de deleuzianos cantores de devires, fluxos e linhas de fuga por todo lado (1). Na apresentação de quarta, em chave emotiva de nostalgie de la boue, Uriel introduziu a metáfora da subida do Rio Mekong em Apocalypse Now (1979), cara que lhe é a imagem do lorde das luzes que imerge na escuridão do irracionalismo, mas talvez também valesse remeter à cena final de The day after (1983). No final do filme que levou o então presidente americano R. Reagan a rever a política de escalada de tensões nucleares com a União Soviética, o Prof. Huxley (John Litigow), já irremediavelmente contaminado pela radiação, retorna para morrer na cidade natal devastada pelo holocausto, em meio à agonia dos últimos sobreviventes. Estão todos condenados na desolação pós-apocalíptica dessa famosa sequência, cujo entorno foi composto a partir de imagens retiradas de Hiroshima depois da bomba atômica. No final, o zoom out dos personagens abraçados lembra vagamente a cabaninha improvisada do final de Melancholia (2011), quando a imagem escurece e, no negrume total, se ouve a última fala do filme, uma voz num rádio amador: “Tem alguém aí? Qualquer um?!”. Quando o animado debate entre os vários aceleracionismos (de “esquerda”, maquínico-cibernético, ciborgue-ecológico, ultramodernista, singularitano) e os anti-aceleracionistas (de “esquerda”, negativistas, gaia-antropológicos, geralmente a partir de Malign Velocities, de Benjamin Noys, em 2012) se distribui entre otimistas desencantados, pessimistas alegres e pessimistas tristes, as recentes intervenções teóricas de Land — por vezes associadas ao movimento alt-right e neorreacionário — simplesmente não cabem entre as correntes em formação. Uma espécie, quem sabe, de otimismo macabro, entre a celebração futurista das velocidades e o prazer masoquista de assimilação pela máquina. Para seguir na estética do cinema, com Land estamos no mood nem tanto da paranoia nuclear de The day after, Threads (1984) ou Edge of Darkness (1985), mas sim num canto ao erotismo maquinal monstruoso que pode ser sentido, por exemplo, na trilogia de horror cyberpunk do diretor japonês Shinya Tsukamoto, começando com Tetsuo: o homem de ferro (1989).

Bruno Cava

Nota:

[1] — curiosamente, no Brasil, a “saída pela micropolítica” proposta por alguns deles nada mais é do que um novo nome para a velha “consciência de classe”, que por sua vez se resolve, no caso, na impudente filiação a Lula e ao petismo sediado em São Paulo.

APRESENTAÇÃO (por Uriel Fiori)

“O problema não é tanto as elites brancas, mas as elites aliens.”

 

Comentário crítico da apresentação

Uriel conseguiu articular e atravessar bem um grande mosaico de ideias. A forma como o Land escreve e debate as questões é uma experiência intrigante e por vezes estranha. Uriel ajudou a deixar isso mais acessível. As imagens de mundo que o Land constrói são muito interessantes e ele consegue deslocar bem o pensamento crítico dos seus lugares comuns. Ele faz um uso criativo do cinema e da literatura pra fabricar essas imagens. Também é interessante a exploração dele sobre o comércio/mercado (ou tecnocomercialismo, como ele diz) como lugar de fluxos, intensidades, aglutinações, dispersões, cortes, descontrole. Pensar o mercado como ‘lugar’ possível de disputa e construção política de autonomia. Uma área de reflexão que a esquerda abandonou totalmente. Fico pensando como a esquerda poderia ser pensada como agente coletivo concorrente com outros agentes coletivos do mercado, disputando a produção social, cultural, financeira, discursiva, semiológica, etc, e se ela seria capar de produzir esses fluxos, mas, ao contrário das empresas, liberando, descontrolando, dispersando. O que não faltam são exemplos de como a Esquerda tentou “monopolizar” fluxos que ela mesma produziu.

Land é bem mais provocador e original que os considerados “aceleracionistas de esquerda”. Na verdade, essa divisão que se faz entre os aceleracionistas, reproduzindo essas velhas dicotomias, não ajuda. O aceleracionismo é um debate, uma filosofia política, uma pesquisa que está colocando questões, como o Uriel apontou. Sem pretensão de ser uma nova “ideologia”, uma nova cartilha ou coisa assim. O que esse debate pode produzir enquanto agrupamentos e disputas ainda é muito incipiente. Apesar de já existirem disputas em torno dessas questões. Como é o caso dos debates feitos pelo Eduardo Viveiros de Castro e pesquisadores próximos a ele, que parecem detestar o aceleracionismo e já apresentam o aceleracionismo como aparentemente perigoso, ameaçador ao clima, rejeitável.

Por exemplo, o artigo do Moysés Pinto Neto na revista do Instituto Humanitas da Unisinos, em que diz que o capitalismo é aceleracionista. Mas há uma diferença grande em dizer que o capitalismo é acelerado e dizer que ele é aceleracionista, vinculando-o ao pensamento aceleracionista. O capitalismo funciona num regime acelerado, 24h/7dias, se atualizando a todo momento, mas, a crítica central do aceleracionismo é outra coisa. Não tem a ver com intensificar, superaquecer, turbinar a reprodução do sistema, repetindo-o incessantemente. Nick Land percebe dentro do metabolismo do capitalismo mais potencialidades de liberação e descontrole do que qualquer marxista já tenha feito, levando ao pé da letra a intuição de Marx e Engels no Manifesto Comunista (1848), quando escrevem que o capitalismo é um aprendiz de feiticeiro que brinca com um fogo que, no final, não poderá controlar. E é isso que o aceleracionismo propõe intensificar, essa deriva autodestrutiva do feiticeiro, mas por meio da aceleração da composição humano-técnica, para produzir mais autonomia, como o Uriel apontou.

Em alguns momentos da fala do Uriel, fiquei me questionando o quanto alguns dos problemas colocados ali não seriam velhos problemas da filosofia política, ressurgidos com uma roupagem high tech. Por exemplo, quando ele propõe um sistema cibernético de administração política, em que se é controlado tanto quanto se controla, isso me lembra muito Rousseau e a ideia de uma lei como expressão de vontade geral, em que obedecer a lei seria o mesmo que obedecer sua própria vontade, mas também todas as propostas de resolução do político no técnico, uma constante na história iluminista do socialismo e em toda a tradição das Luzes. Claro que, do ponto de vista histórico, são coisas bem diferentes, mas, assim como a filosofia política moderna pretendeu aplicar uma programação racional para fazer funcionar uma máquina política ideal, essa programação cibernética parece reeditar o mesmo problema, onde a questão tecnológica aparece apenas como um update. Na verdade, esse uso da cibernética para pensar constitucionalismo, como o Uriel expôs, já existe com a teoria dos sistemas de Niklas Luhmann, que é um modelo baseado na cibernética e que pensa o Direito como sistema cibernético, como no Direito Autopoiético formulado por Gunther Teubner. Nessa lógica luhmanniana, as suas operações progressivamente se diferenciam numa auto-operatividade num entorno caótico, relacionando-se com ele na forma de inputs e outputs, em constante retroalimentação a partir dos feedbacks.

Também percebi que não houve, ou não há, uma reflexão sobre práxis e subjetividade. Constata-se toda uma construção de modelos e explicações, mas isso não passa por um questionamento de como torná-los possíveis, de como isso funcionará enquanto ação possível em situações concretas. O Land apresenta intuições bem interessantes sobre o funcionamento maquínico do capitalismo, mas investe pouca energia para prolongar essa reflexão para o problema da ação ou intervenção. E talvez não seja mesmo uma preocupação dele, já que no final das contas parece que ele acaba assumindo posicionamentos de sabor fatalista (“seremos dominados pela inteligência artificial”, coisas do tipo); talvez também porque ele já tenha abandonado totalmente a figura do humano e, portanto, a reflexividade em relação à ação, a própria finalização dos meios. Como o próprio Uriel colocou, não há o que o humano possa fazer contra a inteligência alienígena do capitalismo.

Quanto à ideia de “exit” como alternativa a “voice”, no meu último texto no blogue Mil Brechas, escrevi algumas críticas sobre as propostas de comunidades alternativas que valem para essa proposta de êxodo. Também senti falta de qualquer reflexão sobre os conflitos e antagonismos que inevitavelmente se interporão no processo de construção dessas vias alternativas, já que terão de mexer no espaço preenchido integralmente de relações de forças entre os agentes envolvidos. Não se migra simplesmente de cidade, ou uma cidade simplesmente não se autonomiza em relação às várias instâncias de poder constituído e suas redes moleculares. Onde fica o pensamento das assimetrias, posições desvantajosas e desníveis entre os vários polos de exercício do poder e resistência?

Renan Porto

PS: Dito tudo isso, vale a pena realizar algumas expedições pelo mundo polar landiano. Uriel já traduziu para o português vários textos dos blogs do Land, que são onde está acontecendo hoje a maior parte da reflexão dele, inclusive sobre o Iluminismo Dark e o neorreacionarismo. Os textos estão publicados no blogue Xeno Sistemas. Além disso, Uriel já traduziu boa parte do livro Fanged Noumena. Com quase 700 páginas, reunindo textos de 20 anos de trabalho, está disponível no blogue numenoscompresas.wordpress.com/.

3 notas sobre eleições

1. A derrota nas eleições não pode ser percebida como derrota total. No que observo do que se escreveu depois das derrotas da esquerda, há um tom de ultimato. Como se depois das derrotas nas eleições tivéssemos que reerguer um castelo que está em ruínas. Penso que enquanto os modos de organização das lutas sociais (e me questiono o quanto posso usar “esquerda” como um signo pra isso) forem tão focados no Estado, na disputa pelo governo, muitas outras lutas que estão além disto serão perdidas. As eleições podem ser uma parte da luta, uma via estratégica, mas, não é tudo. É preciso ter um olhar mais distanciado do governo e cultivar mais o pensamento sobre a autonomia. Digo, é preciso uma desidentificação maior com o poder para funcionar melhor “fora” dele. “Fora”, entre aspas, porque o conjunto das instituições financiadas com dinheiro de impostos, o Estado, não é uma transcendência da qual o ‘social’ está fora. O Estado não tem tanta unidade e homogeneidade quanto a capenga filosofia política moderna pensou. Existe tensão entre essas instituições que o compõem. Ocupar um posto de comando não é mais que assumir uma posição estratégica. Se não há gente mais alinhada às lutas sociais ocupando estes postos, as lutas não param por causa disso.

2. Eu acho meio inútil todo discurso que tenta constituir um modo único de pensamento e ação; um discurso monolítico e não político. Lembro de Rancière que diz que só existe política quando há dissenso e no consenso há apenas governo. É inútil porque a unidade simplesmente não acontece. Os grupos e pessoas são heterogêneos, as vontades são diversas. E isso não é bom ou ruim. Isso é assim. Ao invés de tentarmos redesenhar um novo corpo ideal do que a esquerda deve ser a partir de agora, penso ser mais interessante simplesmente continuar organizando ações, agrupamentos, mobilizações, instituições, etc. Ir se espalhando, deixando que os grupos se espalhem, criando relações e trocas entre eles. Penso que é necessário multiplicar mais, espalhar mais. Chegar a alcançar um ponto de maior intensidade nas relações de poder, como a presidência, é um efeito da soma de muitos processos menores.

3. Não existe manifestação certa e errada nem é uma questão de legitimidade. As manifestações estão acontecendo. Estão aí. Elas colocam demandas, expressam a indignação social, criam arranjos, novos agrupamentos, tendências, etc. Simplesmente condenar as manifestações “verde-amarelas” não ajuda em nada; só aprofunda um abismo no qual estamos caindo. A esquerda tem funcionado sempre com essa negação de seu “outro”, esse ressentimento. Eu acho melhor tentar explorar mais algumas pautas como a corrupção, a destituição das castas, etc. E talvez tenhamos que fazer isso apesar da esquerda.

Nota sobre aceleracionismo vs. decrescimento

O capitalismo não precisa de impulso pra ser acelerado. A aceleração já é sua tendência própria. Disputar o controle dos vetores dos fluxos, ou em outras palavras, “planificação”, “intervenção estatal”, é uma proposta molar que tenderia facilmente ao autoritarismo. É o caso do aceleracionismo de esquerda proposto no manifesto #accelerate de Nick Srnicek e Alex Williams. O aceleracionismo de direita, proposto por Nick Land, poderia servir para criar fluxos alternativos e descentralizar as fontes. Mas, o capitalismo vai continuar como uma máquina mundializada que, casada com a Terra, incluindo-a, se torna autofágica; tende à própria ruína e nessa leva vamos junto. O que já está acontecendo com o aquecimento global, catástrofes climáticas, secas, extinções (como a dos índios no Brasil que agora somam apenas 0,47% da população brasileira, além de outras espécies animais).

O capitalismo é um sistema que está em constante atualização. Porém, não se deve pensá-lo como algo homogêneo dotado de vontade. Quem o reinventa são seus agentes. Estados e empresas multinacionais, principalmente. Mas a sua reinvenção é a reinvenção das formas de controle, dominação e exploração. É um modo de produção e organização da sociedade que, de fato, não deu certo. Gerou benefícios ínfimos diante da devastação e destruição de ecossistemas e países do sul global. E está levando o planeta a um ponto-limite de sua existência. Até liberais capitalistas reconhecem esses danos, apesar de insistirem que é ainda é o melhor modelo econômico. Por exemplo, Fareed Zakaria, cientista político de Harvard, no seu livro “O Mundo Pós-Americano”, que vendeu centenas de milhares de exemplares.

Então, o decrescimento é uma proposta melhor para aqueles que buscam liberar as formas de vida do controle capitalista. Mas, não deve ser pensando enquanto mera resistência e negatividade. Apesar de que em muitos pontos o decrescimento vai ser um movimento de oposição, como na preservação de florestas e comunidades tradicionais que tem a natureza como sua cultura. Mas, indo além disso, sua positividade se dá em uma construção de relações e vínculos comuns e locais. Num mundo já globalizado em que as redes de poder já transcenderam o Estado-nação (FMI, Banco Mundial, empresas multinacionais, etc), quando já está sendo pensada por vários autores uma globalização alternativa, isso pode combinar com cidades-Estado interconectadas. Algumas correntes contemporâneas de pensamento político, como a Neo-reaction nos EUA, já propõe uma forma de neofeudalismo. Mas, as cidades-Estado já existiam muito antes dos feudos. Não se pode confundir uma coisa com a outra. Uma forma mais radical de federalismo em que as cidades ganham mais autonomia, mas não deixam de estar conectadas em rede, poderia viabilizar uma forma de democracia mais radical porque o exercício do poder sobre a vida fica mais próximo geograficamente dos sujeitos a este poder. No mínimo, a “Bastilha” ficaria mais próxima para ser tomada.

Outro debate que se coloca entre aceleracionismo e decrescimento está relacionado ao desenvolvimento técnico. Um debate que já conta décadas. Não sendo mais possível retroagir quanto aos avanços tecnológicos, o que não é nem uma boa ideia, é o caráter da ciência que deve mudar. A ciência deve ser outra e atualizar e criar uma forma/técnica de produção (mais) autopoiética, que consiga se retroalimentar, produzir sua própria matéria-prima, mais tecnologia de reciclagem, e interferir o menos possível na natureza.

Deixo aqui o link para o blog do pesquisador Ednei de Genaro que traz abordagens mais profundas sobre essa questão: “Politizando as tecnologias”

Uma outra concepção de Esquerda e Direita

Quando se fala em capitalismo, deve-se incluir implicitamente que também está se falando do Estado. Ambos são gestados juntos entre os séculos XVI e XVIII com base na acumulação de riqueza oriunda da colonização e tráfico de escravos (mercantilismo). Não existe um sem o outro. O Estado sempre teve um papel central como regulador no capitalismo. E estamos falando aqui do Estado-nação moderno, fundado teoricamente sobre abstrações como soberania, “povo”, território, contrato social. O mesmo Estado democrático de Direito.

11750646_959669290763296_2346958592338692673_nPortanto, o dualismo entre Esquerda/Estado/igualdade/coletivo e Direita/mercado/liberdade/indivíduo não funciona. A história mostra que o Estado não foi capaz de gerar igualdade e o Mercado não gerou mais liberdade. O Estado gerou hierarquias e ajudou a aprofundar o foço entre ricos e pobres, como faz o BNDES no Brasil, transferindo renda de pobres para os ricos. Por exemplo, o financiamento que vai para indústrias, como os R$ 200 bilhões destinados pro agronegócio esse ano ou a grana que banca os cursos de medicina pros filhos da elite. E o Mercado não gerou liberdade. Temos um tempo cada vez mais controlado. Quando não estamos trabalhando, estamos buscando qualificações para trabalhar.

Estou colocando “Mercado” com letra maiúscula porque quero me referir às grandes empresas em conluio com o Estado. “Grandes”, porque isso também acontece em nível estadual e municipal. Mas, não me refiro às trocas livres, que penso poderem ter hoje um papel importante na construção de autonomia das lutas porque é uma forma de geração de riqueza, o que é poder. Por exemplo, os movimentos sempre fazem camisetas, livros, festas, etc, pra financiar suas atividades. Se a esquerda largar de neura com as práticas de mercado livre, agorista (de ágora), mutualista, pode construir muito mais força.

Uma concepção que tenho pensado sobre direita e esquerda e que acho interessante é a da esquerda como aquela que produz caos, turbulências, para criar liberações e linhas de fuga dos aparelhos de controle (quais? A PM, as burocracias partidárias centralistas, a jornada de trabalho, a família patriarcal, etc); e através da produção de caos e desterritorializações cria espaços-tempos que possibilitam reterritorializações, reorganizações, mais autônomas. Digo, a abertura de um tempo para uma nova forma de reorganizar o caos.

E a direita… Aquela que se defende e busca conservar as coisas como estão. Afinal, o futuro é contra ela.

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alter-alteridade

Os tempos são difíceis e as disputas intensas. Sempre clamamos por alteridade, mas, na maioria das vezes essa ideia é romantizada numa concepção moral de diálogo cordial. Alteridade é a presença da diferença, contraste, distinção. Aquilo que rompe com meu ‘mesmo’ e me coloca diante do que é ‘outro’. É arrombamento do estrangeiro nas paredes da minha identidade. Como ser hospitaleiro e não ver o outro como ameaça? Como permitir a liberdade daquilo que não é continuidade do meu mundo? Imaginando o pensamento como território, a alteridade me desterritorializa e me reterritorializa em outro lugar. Me arranca as raízes com terra e tudo e me joga no mar. Me deixa boiar até uma terra nova. E se tratando de democracia, essa palavra tem mais a ver com a permissão do conflito, do dissenso, do que com o conforto de fazer das muitas faces espelhos; do que abafar tudo sob uma bandeira. Nunca foi sinônimo de tolerância e permissão da opressão, mas, pelo contrário, dar a pensar a afirmação da presença do que é proibido de estar presente.

O atrito dos encontros faz ferver os afetos. Desde o amor ao ódio. E todos temos paixões e somos movidos por elas. Porém, o que floresce desde o semear da palavra sem volta? Na pluralidade das lutas, não há dor que dói menos e é difícil senti-las todas, lembrá-las todas. Não sei quantas dores podem ocupar o mesmo lugar. Mas quanto mais braços, mais leve o fardo. Melhor o zunir do enxame, que a cor opaca da colmeia. Melhor a mata cheia que a solidão do preto e branco do pardal. Quando o que motiva a palavra é a repressão, melhor o encontro dos lábios. “A melhor tradução é o beijo”. No vuco-vuco é melhor entrar no bolo e achar uma rodinha pra dançar que subir pra laje e ficar jogando pedras.

É mais produtivo buscar pontos comum e menos rixas. Se constituir mais pela afirmação do que se acredita do que pela negação do que não se acredita. Colaborar mais no que for possível e criticar menos (o que não quer dizer não criticar). Ninguém está além, tampouco isento.