Círculos que não se fecham, corpos que não se seguram

Publicado originalmente na R. Nott Magazine

O que primeiro me queimou os olhos talvez tenha sido quão alto subiu a labareda de uma cesura. Um traço entre os que brincavam com fogo e os que desejavam água, mais água, as águas de um afogamento, que lavasse os mascarados de sua anormalidade. “A luta de verdade é aqui. Vocês tem que se juntar à nós”, ouvia-se do palco enquanto a praça ainda não se convertera totalmente num palco de guerra. Percebi então quão ilegíveis eram os signos da velocidade. Cada bomba que explodia era o grito de um passado que nos fazia fugir em direção a um futuro cada vez pior. Os olhos agora queimavam com o gás lacrimogênio. As explosões insistiam em lembrar minha incapacidade de alcançar o presente. Quiçá era possível enxergar uma saída além daquela a que nos empurravam. Logo, não havia possível. O possível não era mais que uma única realidade já dada que nos forçavam a viver e correr para ela como ratos para a ratoeira. Continuar lendo

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Ciborgues sonham com britadeiras?

Publicado originalmente na revista Lugar Comum nº 50

[…]

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!

[…]

Fernando Pessoa, Ode triunfal –Londres, 1914

1. Ciborgues

O que torna este poema epigrafado interessante para começar a pensar sobre aceleracionismo é a simpatia que ele manifesta em relação ao maquinário posto em movimento pela modernidade. Parece haver nele uma excitação de como isso poderia nos levar à superação dos limites do corpo humano. Fazer coisas de formas cada vez mais rápidas e eficientes. Os textos sobre aceleracionismo, principalmente os de Nick Land, estão recheados de figuras como ciborgues (cyberneticorganism = cyb + org), robôs e monstros alienígenas. Personagens como O exterminador do futuro (James Cameron, 1985) ou os personagens do filme Blade runner, o caçador de andróides (Ridley Scott, 1982). Interessante lembrar aqui um texto-manifesto, bem anterior ao Manifesto Aceleracionista: o Manifesto Ciborgue (1984) da filósofa e bióloga irlandesa Donna Haraway. Nesse texto, ela observa que a figura do ciborgue não é algo que está num futuro distante. Nós já somos ciborgues; nós já fazemos grandes esforços para melhorar o rendimento do nosso corpo, a eficácia da nossa inteligência, para aumentarmos a concentração. Já dispomos de diferentes técnicas e suplementos a fim de superar os nossos próprios limites corporais e dar conta do ritmo cada vez mais acelerado de nossas rotinas nas cidades. Porém, nessa correria para atender às exigências que nos são impostas, temos a nossa subjetividade moldada de maneira heterônoma. Continuar lendo

Por uma texturologia do poder

Uma questão problemática no livro do Comitê Invisível, Aos Nossos Amigos, é a tendência para um “fora”. A ideia de organizar comunidades autônomas que funcionem à parte dos circuitos capitalistas. Esses agrupamentos podem acontecer de modo intensivo e ter uma funcionalidade estratégica em determinados contextos, como é o caso citado no livro dos acampamentos do movimento 15M na praça Puerta del Sol, em Madri. Porém, é difícil que essas organizações tenham tanta extensividade quanto a dos zapatistas e curdos, a ponto de conseguir manter a sustentabilidade do grupo. No caso dos zapatistas e curdos, existe o elemento territorial como base central da organização. Nos movimentos urbanos, isso é muito mais difícil quando o resto da cidade não compartilha das mesmas ideias e também quer usar aquele espaço de outras maneiras. Cabe também questionar o quanto esses processos são desejáveis já que correm o risco de acabar como localismos, isto é, que não conseguem expandir-se para além da própria localidade. O problema da construção de autonomia hoje não tem como contornar a questão do trabalho e do emprego, que é o cotidiano da vida nas cidades. Continuar lendo

Os evangélicos e a esquerda distante: para além da derrota eleitoral

Uma diferença clara entre evangélicos e esquerda é que os primeiros se fazem muito mais presentes no interior das comunidades, têm construção social. Lá no interior profundo, totalmente distante da cidade, há poucos anos atrás até sem energia elétrica, há uma igreja. Eu cresci na roça e numa família evangélica. Fui em muitas igrejas assim. Se engana quem só demoniza essa presença como força castradora. Os evangélicos se visitam pra orar uns pelos outros — e oração aqui também deve ser entendida como exercício de espiritualidade que traz a causa do outro à memória — e se reúnem pra ajudar alguém da comunidade que está passando necessidade. Mais que isso, a fé é um impulso potencializador que motiva a pessoa a continuar lutando. No espaço das igrejas, e no caso falo mais dessas periféricas, mais orgânicas e menos burocratizadas, as pessoas podem falar, compartilham suas dificuldades, as mulheres podem falar, as crianças também participam, jovens aprendem música, muita gente aprende ler pra poder ler a bíblia. Essas coisas conquistam dignidade para essas pessoas. Elas se sentem especiais, valorizadas, acolhidas na igreja. Já vi muitos casos de famílias que mudaram muito quando o marido se converteu, parou de beber e de chegar bêbado em casa e bater na mulher, a renda da família, às vezes tão pouca, melhorou. Todos esses processos são cheios de ambivalências, mas essas coisas têm muito sentido na vida dessas pessoas. E quer ver como a favela percebe os evangélicos? “Ore por nós pastor, lembra da gente / No culto dessa noite, firmão, segue quente / Admiro os crentes, dá licença aqui / Mó função, mó tabela, pô, desculpa aí”, Racionais MC’s, Vida Loka Parte 1.

Agora, como a esquerda se faz presente na vida das comunidades? Ou pior, isso acontece? Eu, como boa parte de jovens da periferia, só fui aprender o que é esquerda e direita depois que entrei na faculdade. E vejam só, minha preocupação com justiça social surgiu na igreja, minha militância começou em coletivos evangélicos. Depois que passei pela esquerda. Sei que a maior parte das pessoas que vivem na periferia não sabem o que é esquerda e direita. O que define o voto na periferia é, na maioria das vezes, menos ideológico e mais afetivo. Sei também que a esquerda, suas lideranças e militantes, é majoritariamente composta por universitários e gente de classe média. Principalmente o PSOL. Não estou culpabilizando nem denunciando privilégios ou coisa do tipo. O que quero apontar com isso é que existe uma diferença grande de linguagem e percepção da vida entre esses grupos e as pessoas da periferia.

No caso do Rio de Janeiro há ainda uma distância territorial entre esses grupos que dificulta ainda mais o encontro entre eles. Zona sul e zona norte. Eu mudo de cidade quando atravesso o túnel Santa Bárbara. Na última vez que fui no Rio também percebi que a galera da zona norte vai muito na zona sul, mas a galera da zona sul vai muito pouco na zona norte. É mais um problema de distância entre esquerda e periferia. Claro que há muita esquerda na zona norte, mas a Praça São Salvador (ponto de encontro da esquerda carioca) ainda é na zona sul.

Acho que um primeiro passo pra uma reconstrução da esquerda depois dessa derrota geral, pra além do Rio, é reconhecer que ela tem muito pouca relação com os pobres. Por mais que pense neles, acha que defende eles, etc, há muito pouca relação pessoal entre esquerda e periferia. É necessário reconhecer que a esquerda não representa os mais pobres, não fala por eles. Fala por si mesma e conhece pouco a periferia. Talvez não precise nem criar nada. Tem muita luta rolando nas periferias. Talvez seja só um caso de ir lá, conhecer, criar relação e se dispor a ajudar.

Quando novos sujeitos já estão em cena

Discurso no colóquio Teologias da Multidão na Casa de Rui Barbosa, Rio de Janeiro, em 20/10/2016

 

Teologia e poesia são cães selvagens espreitando a beira do abismo à procura de um pouco mais de margem. São expedições sobre a borda e o quão longe podemos estendê-la. Buscam o que está além da linguagem e o que a linguagem ainda não suporta. E o que está além da linguagem por vezes é o que já esteve aquém e do que não sabemos muito sobre a origem. A teologia e a poesia percebem uma presença e tentam fazê-la aparente. São garotos na noite atacando uma mangueira com paus e pedras pra ver se conseguem derrubar uma manga. Mesmo que caia da árvore um peixe vivo. Quando a palavra toca a coisa, um mero raspão, a coisa dá sinais de existir. A palavra cria a coisa que fora da linguagem não existia para nós, mas existia. Continuar lendo

“Transformai as velhas formas de viver”

salviati

           Francesco Salviati, Kairos und Ignudo (Sala dell’Udenzia invernale), 1552-1554,  Roma

Que a Igreja e os cristãos fabricaram um novo sagrado, esmagaram os homens, aprisionaram o homem na culpabilidade, foram reacionários e desenvolveram o poderio, formularam os piores dogmatismos, protegeram as injustiças, combateram a verdade, fizeram viver o homem num idealismo enganador (…). É a transformação de Jesus Cristo em cristianismo, da relação fraterna em instituição, da revelação em religião, da palavra em coisa, é a tomada de posse daquilo que não nos pertence. É a instalação enquanto estávamos a caminho. Isto é o que deveria ter sido questionado e obtido vitória sobre o que caracteriza nosso mundo foi finalmente subordinado ao espírito deste mundo, o poderio, o sucesso, o dinheiro, a eficácia e ao mesmo tempo o desespero. Mas precisamente, ainda que tenha sido assim, porque a esperança cristã está no âmago da verdade cristã, respondo simplesmente: “Não é obrigatório que seja sempre assim”, Jacques Ellul, Mudar de Revolução, p.279, 280. Continuar lendo

O que se perdeu de junho

Daquele evento talvez ainda saibamos muito pouco. Ou talvez fosse melhor dizer que dele aprendemos muito pouco. Ainda são muitos que seguem a buscar a melhor interpretação, a face atrás do véu. “General, agora que sabemos o que realmente aconteceu, o que devemos contar para o povo? E o que devemos pedir para o rei?” Sabemos que Junho de 2013 foi uma fratura na tela do relógio. O relógio tombou e começou a girar diferente. Junho abriu outra temporalidade política e agora parece que mais buscamos entender que tempo é esse do que vivê-lo e experimentá-lo.

O governo Dilma trabalhou para tapar a rachadura no muro, por onde uma luz se insinuava. O governo federal não fez nenhum esforço para frear a repressão violenta das ruas. Fez pior. Encomendou uma lei em regime de urgência para criminalizar as manifestações: a lei antiterrorismo, somada à lei das organizações criminosas sancionada por Dilma em pleno agosto daquele ano de insurgência. No meio disso tudo, o aparato intelectual governista reforçou e refinou o discurso que logo se tornaria consenso repressivo, a seguir desabado sobre as cabeças dos manifestantes. As manifestações foram tachadas de suspeitas e manipuladas, de fascistas, em aliança objetiva com traficantes e imperialistas. Continuar lendo