A escrita diante do espelho

escrever como suicídio em potência, virtual e inatual, do sujeito petulante. quem no fundo no fundo pretende ser lido 2 mil anos depois. já sem mundo nem leitores nem gente também estúpida. se um texto sobrevive milênios é porque respondeu tão bem ao seu tempo que passou a ser um componente da história. “escrevo para apagar meu nome”, Bataille. neste momento escrevo senão para que minha respiração volte ao normal. fugido duma cabine de biblioteca onde meus pensamentos tumultuavam. milhares de ratos tentando fugir por um cano onde só passava um por vez. mordiam reciprocamente suas caldas, nucas e orelhas e a única coisa que passava era o sangue rico em leptospirose. eu era cada rato e o sangue e a bactéria. leptospira interrogansa. a escrita zerada em Artaud: pra que, por que, como, o que escrever quando toda escrita é porcaria. numa tarde de sábado abro a porta e me deparo com uma andorinha que pendulava entre a vidraça e um grande espelho na saída do meu quarto. sem nenhum acanho ou temor metia a cara no espelho tentando lançar seu corpo para outra realidade. percebeu que não passava de uma repetição e fugiu pelo corredor. lembrei do meu gato quando filhote que de frente pro espelho atacava sua imagem refletida. escrever como destruição de si. encarar-se como outro e tentar feri-lo. adentrar a mata à noite sem lanterna e caçar cada identidade e espancá-la. dormir sobre raízes tendo uma pedra como travesseiro. quando o primeiro raio de luz secar a baba no pescoço, buscar os restos e vesti-los como uma nova pele. escrever inescrupulosamente como experimentação de si. santificar a escrita. pois para isso servem os santos: denunciar sutilmente as consciências tranquilas do seu rebanho para quem quer devorá-lo.

(10/2015)

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