O aceleracionismo interpelado pelo corpo

Por Franco Berardi (Bifo), em e-flux, junho de 2013 | Trad. Renan Porto, UniNômade

 

A aceleração é uma condição para o colapso final do poder?

Aceleração é a característica essencial do crescimento capitalista: aumentar a produtividade implica uma intensificação no ritmo de produção e exploração. A hipótese aceleracionista, mesmo assim, aponta as implicações contraditórias do processo de intensificação, enfatizando em particular a instabilidade que a aceleração traz ao sistema capitalista. Contra essa hipótese, porém, minha resposta para a questão se a aceleração seria capaz de produzir um colapso final do poder é bem simples: não. Não, porque o poder do capital não está baseado na estabilidade. Naomi Klein explicou a habilidade do capitalismo em lucrar na catástrofe. Além disso, o poder capitalista, na era da complexidade, não está baseado em decisões lentas, racionais e conscientes, mas em automatismos incorporados que não se movem na velocidade do cérebro humano. Pelo contrário, se movem na velocidade do próprio processo catastrófico. Continuar lendo

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A sordidez do conteúdo desses dias maquinais

Introdução aos poemas publicados na R. Nott Magazine

Alugar o corpo para um poema. Pagar o aluguel do próprio corpo com um poema. O poema como um outro regime corporal. Um outro corpo. Não um outro ‘eu’, mas um outro. Escrever poemas como se arranca costelas para germinar o pecado no mundo. Não o pecado, mas a possibilidade de conhecer o inviolável e possibilitar mil outras experiências. Os riscos da novidade ou uma monotonia eterna. O estrago feito pelo poema me tirou de um paraíso, paradeiro, paralisia. Não havia mais mundo, mas outros mundos se recompondo e se destruindo a todo momento. Se eu tivesse me rendido àquela alegria original da brisa suave de um poema, nunca teria escrito mais do que marcas de morte fantasiada de vida. Os poemas produzem oxigênio e é possível respirar com eles. É possível mastigá-los. É possível responder as acusações com poemas e assim não respondê-las. “Meu corpo”, Artaud, “meu corpo”, a questão que se coloca, “no meu corpo não se toca nunca”, para acabar com o julgamento de Deus. E é preciso destruir-se como ‘eu’ para realmente encontrar a solidão. A possibilidade. A possibilidade. A possibilidade. Os possíveis. Os possíveis. Os pus os pus os pus & foi isso a poesia. Não foi nunca. Nunca houve. Eu escrevi trezentos poemas. Eu apaguei muitos. Eu apaguei. Eu apaguei eu e e e à cada poema. Escrevi esse texto em torno de outubro de 2015: O texto do fim do texto: A escrita diante do espelho. A escrita contra si. Um perspectivismo e um multinaturalismo de si. São os mundos que são outros e não as formas de significa-los, como na metafísica canibal de Eduardo Viveiros de Castro. Foi naquele ano foi o ano que li quase tudo de Waly Salomão ouvindo Jards Macalé. Foi o ano que conheci o Pércio e conhecer o Pércio foi como ter um encontro com Cristo. A poesia tirou a religião de mim para que eu pudesse encontrar a fé. Foi o ano que fiz minhas primeiras aventuras no Rio de Janeiro. Agora eu moro no Rio de Janeiro e parece que This must be the place: home is where i want to be. Em 2015 eu ainda estava em Uberaba. Não suportava mais a faculdade e só queria terminar logo aquilo e vazar. Cada poema que eu escrevia era uma forma de dar essa vazão. Em 2015 eu desisti de publicar um livro e apaguei mais de 80% de tudo que havia escrito. Foi com o Pércio que conheci Artaud, Lautreamont, Herberto Helder. Citação: Poemacto IV, de Herberto Helder. Eu já era apaixonado por Fernando Pessoa. O poema ‘Tabacaria’ do Álvaro de Campos foi um dos maiores rasgos de 2013. Uma outra vida começou ali & era escabroso. Não houve coisa melhor do que se permitir algumas doses de caos & foi horrível & foi maravilhoso. Em 2015 eu conheci o Nícollas Ranieri. O Nícollas foi uma escola sem paredes. Não havia quadro negro. Por mais que fosse negra a nuvem que já cobria o céu. Parecia que eu só tinha a poesia contra o mundo, mas tive o Nícollas também. E aqueles terzinhos quando aconteciam me permitiam continuar quebrando mato. Dentre os rasgos de junho de 2013, eu já lia os textos do Bruno Cava e foi também em 2015 que o conheci na minha primeira viagem ao Rio. A poesia sempre foi um exercício de exploração nas bordas do pensamento. A dobra. Cadê a dobra? Caía-se em outro lugar. Na minha primeira semana morando no Rio fui nas primeiras aulas dos cursos do Bruno sobre os Mil Platôs de Deleuze e Guattari e sobre Henri Bergson e Deleuze. Eu consegui respirar ali. Era possível dar risada. Eu odeio o fato de que a edição brasileira dos Mil Platôs é dividida em 5 volumes. No volume 2 li sobre as máquinas de enunciação que provocam as transformações incorpóreas das coisas do mundo. Não era sobre o mundo que se escrevia. A poesia cria seus outros mundos deste mundo. Se é que se pode falar de “este”. Se é que se pode falar. A poesia foi então a possibilidade de continuar falando e de poder dizer algo e acreditar que algo realmente estava sendo dito; de que havia um dizer que era já um dito. Mil ainda é um número muito pequeno. Eu quero poder pensar números tão grandes quanto pensou Srinivasa Ramanujan. Os cálculos dele são usados para analisar o comportamento dos buracos negros. A poesia produz buracos negros. Especula possíveis conexões com outros espaços-tempos. “Poesia: procura de um agora e um aqui”, Octavio Paz, O arco e a lira. É aqui e agora que eu posso estar em outro tempo e em outro lugar. Foi abismante quando soube que Pasolini era realista. Não sabia que a realidade podia tanto. A poesia como prática de tensionar os limites. O limite a lide do possível. Em 2016, quando tantos mundos acabaram para tanta gente, inclusive para mim, aprendi a acreditar de novo. E é preciso acreditar nas coisas para vivê-las. Neste sentido, o milagre é possível. Me interessam agora os textos que conseguem multiplicar os pães e transformar água em vinho. Tornar a vida possível. Resistir contra os tribunais da má consciência e suas crateras de ressentimento.

A escrita diante do espelho

escrever como suicídio em potência, virtual e inatual, do sujeito petulante. quem no fundo no fundo pretende ser lido 2 mil anos depois. já sem mundo nem leitores nem gente também estúpida. se um texto sobrevive milênios é porque respondeu tão bem ao seu tempo que passou a ser um componente da história. “escrevo para apagar meu nome”, Bataille. neste momento escrevo senão para que minha respiração volte ao normal. fugido duma cabine de biblioteca onde meus pensamentos tumultuavam. milhares de ratos tentando fugir por um cano onde só passava um por vez. mordiam reciprocamente suas caldas, nucas e orelhas e a única coisa que passava era o sangue rico em leptospirose. eu era cada rato e o sangue e a bactéria. leptospira interrogansa. a escrita zerada em Artaud: pra que, por que, como, o que escrever quando toda escrita é porcaria. numa tarde de sábado abro a porta e me deparo com uma andorinha que pendulava entre a vidraça e um grande espelho na saída do meu quarto. sem nenhum acanho ou temor metia a cara no espelho tentando lançar seu corpo para outra realidade. percebeu que não passava de uma repetição e fugiu pelo corredor. lembrei do meu gato quando filhote que de frente pro espelho atacava sua imagem refletida. escrever como destruição de si. encarar-se como outro e tentar feri-lo. adentrar a mata à noite sem lanterna e caçar cada identidade e espancá-la. dormir sobre raízes tendo uma pedra como travesseiro. quando o primeiro raio de luz secar a baba no pescoço, buscar os restos e vesti-los como uma nova pele. escrever inescrupulosamente como experimentação de si. santificar a escrita. pois para isso servem os santos: denunciar sutilmente as consciências tranquilas do seu rebanho para quem quer devorá-lo.

(10/2015)

Monstros do Niilismo: Nick Land

Em 8/2, ocorreu a segunda edição Monstros do niilismo, a partir do pensamento do filósofo inglês Nick Land. Uriel Fiori palestrou sobre Land com foco nos dois livros publicados pelo autor, seguido de debate. Abaixo, Bruno Cava introduz o professor de Warwick e eu faço um comentário crítico da palestra.

Remix cyberdark

Nick Land (1962) é uma figura única entre únicos. Misturando filosofia, cibernética, euforia gótica pelo abstrato e ficção cataclísmica, o professor de Warwick catalisou ao seu redor um coletivo de aceleracionistas, o CCRU (Unidade de Pesquisa de Cultura Cyberpunk), formado em 1995, que exalou uma aura de vanguarda ontológica e atrai espíritos dissidentes sui generis até hoje, por exemplo, em meio aos neomaterialistas do realismo especulativo. Com títulos indefectíveis para os seus livros, como Sede de aniquilação: Georges Bataille e niilismo virulento (1992) ou Númenos com presas (coletânea publicada em 2011), Land retoma conceitos de Deleuze e Guattari, como a desterritorialização e aqueles derivados da virada maquínica, para propor um aceleracionismo fundamentalista estritamente construído sobre a linha dos anjos exterminadores do niilismo ocidental, como Nietzsche, Bataille e o próprio trecho aceleracionista do Anti-Édipo (D&G, 1972). Isso, contrasta, sem dúvida, com toda a fauna de deleuzianos cantores de devires, fluxos e linhas de fuga por todo lado (1). Na Continuar lendo

3 notas sobre eleições

1. A derrota nas eleições não pode ser percebida como derrota total. No que observo do que se escreveu depois das derrotas da esquerda, há um tom de ultimato. Como se depois das derrotas nas eleições tivéssemos que reerguer um castelo que está em ruínas. Penso que enquanto os modos de organização das lutas sociais (e me questiono o quanto posso usar “esquerda” como um signo pra isso) forem tão focados no Estado, na disputa pelo governo, muitas outras lutas que estão além disto serão perdidas. As eleições podem ser uma parte da luta, uma via estratégica, mas, não é tudo. É preciso ter um olhar mais distanciado do governo e cultivar mais o pensamento sobre a autonomia. Digo, é preciso uma desidentificação maior com o poder para funcionar melhor “fora” dele. “Fora”, entre aspas, porque o conjunto das instituições financiadas com dinheiro de impostos, o Estado, não é uma transcendência da qual o ‘social’ está fora. O Estado não tem tanta unidade e homogeneidade quanto a capenga filosofia política moderna pensou. Existe tensão entre essas instituições que o compõem. Ocupar um posto de comando não é mais que assumir uma posição estratégica. Se não há gente mais alinhada às lutas sociais ocupando estes postos, as lutas não param por causa disso.

2. Eu acho meio inútil todo discurso que tenta constituir um modo único de pensamento e ação; um discurso monolítico e não político. Lembro de Rancière que diz que só existe política quando há dissenso e no consenso há apenas governo. É inútil porque a unidade simplesmente não acontece. Os grupos e pessoas são heterogêneos, as vontades são diversas. E isso não é bom ou ruim. Isso é assim. Ao invés de tentarmos redesenhar um novo corpo ideal do que a esquerda deve ser a partir de agora, penso ser mais interessante simplesmente continuar organizando ações, agrupamentos, mobilizações, instituições, etc. Ir se espalhando, deixando que os grupos se espalhem, criando relações e trocas entre eles. Penso que é necessário multiplicar mais, espalhar mais. Chegar a alcançar um ponto de maior intensidade nas relações de poder, como a presidência, é um efeito da soma de muitos processos menores.

3. Não existe manifestação certa e errada nem é uma questão de legitimidade. As manifestações estão acontecendo. Estão aí. Elas colocam demandas, expressam a indignação social, criam arranjos, novos agrupamentos, tendências, etc. Simplesmente condenar as manifestações “verde-amarelas” não ajuda em nada; só aprofunda um abismo no qual estamos caindo. A esquerda tem funcionado sempre com essa negação de seu “outro”, esse ressentimento. Eu acho melhor tentar explorar mais algumas pautas como a corrupção, a destituição das castas, etc. E talvez tenhamos que fazer isso apesar da esquerda.

Por uma texturologia do poder

publicado originalmente no blog do coletivo Mil Brechas

Uma questão problemática no livro do Comitê Invisível, Aos Nossos Amigos, é a tendência para um “fora”. A ideia de organizar comunidades autônomas que funcionem à parte dos circuitos capitalistas. Esses agrupamentos podem acontecer de modo intensivo e ter uma funcionalidade estratégica em determinados contextos, como é o caso citado no livro dos acampamentos do movimento 15M na praça Puerta del Sol, em Madri. Porém, é difícil que essas organizações tenham tanta extensividade quanto a dos zapatistas e curdos, a ponto de conseguir manter a sustentabilidade do grupo. No caso dos zapatistas e curdos, existe o elemento territorial como base central da organização. Nos movimentos urbanos, isso é muito mais difícil quando o resto da cidade não compartilha das mesmas ideias e também quer usar aquele espaço de outras maneiras. Cabe também questionar o quanto esses processos são desejáveis já que correm o risco de acabar como localismos, isto é, que não conseguem expandir-se para além da própria localidade. O problema da construção de autonomia hoje não tem como contornar a questão do trabalho e do emprego, que é o cotidiano da vida nas cidades. Continuar lendo