3 notas sobre eleições

1. A derrota nas eleições não pode ser percebida como derrota total. No que observo do que se escreveu depois das derrotas da esquerda, há um tom de ultimato. Como se depois das derrotas nas eleições tivéssemos que reerguer um castelo que está em ruínas. Penso que enquanto os modos de organização das lutas sociais (e me questiono o quanto posso usar “esquerda” como um signo pra isso) forem tão focados no Estado, na disputa pelo governo, muitas outras lutas que estão além disto serão perdidas. As eleições podem ser uma parte da luta, uma via estratégica, mas, não é tudo. É preciso ter um olhar mais distanciado do governo e cultivar mais o pensamento sobre a autonomia. Digo, é preciso uma desidentificação maior com o poder para funcionar melhor “fora” dele. “Fora”, entre aspas, porque o conjunto das instituições financiadas com dinheiro de impostos, o Estado, não é uma transcendência da qual o ‘social’ está fora. O Estado não tem tanta unidade e homogeneidade quanto a capenga filosofia política moderna pensou. Existe tensão entre essas instituições que o compõem. Ocupar um posto de comando não é mais que assumir uma posição estratégica. Se não há gente mais alinhada às lutas sociais ocupando estes postos, as lutas não param por causa disso.

2. Eu acho meio inútil todo discurso que tenta constituir um modo único de pensamento e ação; um discurso monolítico e não político. Lembro de Rancière que diz que só existe política quando há dissenso e no consenso há apenas governo. É inútil porque a unidade simplesmente não acontece. Os grupos e pessoas são heterogêneos, as vontades são diversas. E isso não é bom ou ruim. Isso é assim. Ao invés de tentarmos redesenhar um novo corpo ideal do que a esquerda deve ser a partir de agora, penso ser mais interessante simplesmente continuar organizando ações, agrupamentos, mobilizações, instituições, etc. Ir se espalhando, deixando que os grupos se espalhem, criando relações e trocas entre eles. Penso que é necessário multiplicar mais, espalhar mais. Chegar a alcançar um ponto de maior intensidade nas relações de poder, como a presidência, é um efeito da soma de muitos processos menores.

3. Não existe manifestação certa e errada nem é uma questão de legitimidade. As manifestações estão acontecendo. Estão aí. Elas colocam demandas, expressam a indignação social, criam arranjos, novos agrupamentos, tendências, etc. Simplesmente condenar as manifestações “verde-amarelas” não ajuda em nada; só aprofunda um abismo no qual estamos caindo. A esquerda tem funcionado sempre com essa negação de seu “outro”, esse ressentimento. Eu acho melhor tentar explorar mais algumas pautas como a corrupção, a destituição das castas, etc. E talvez tenhamos que fazer isso apesar da esquerda.

Por uma texturologia do poder

Uma questão problemática no livro do Comitê Invisível, Aos Nossos Amigos, é a tendência para um “fora”. A ideia de organizar comunidades autônomas que funcionem à parte dos circuitos capitalistas. Esses agrupamentos podem acontecer de modo intensivo e ter uma funcionalidade estratégica em determinados contextos, como é o caso citado no livro dos acampamentos do movimento 15M na praça Puerta del Sol, em Madri. Porém, é difícil que essas organizações tenham tanta extensividade quanto a dos zapatistas e curdos, a ponto de conseguir manter a sustentabilidade do grupo. No caso dos zapatistas e curdos, existe o elemento territorial como base central da organização. Nos movimentos urbanos, isso é muito mais difícil quando o resto da cidade não compartilha das mesmas ideias e também quer usar aquele espaço de outras maneiras. Cabe também questionar o quanto esses processos são desejáveis já que correm o risco de acabar como localismos, isto é, que não conseguem expandir-se para além da própria localidade. O problema da construção de autonomia hoje não tem como contornar a questão do trabalho e do emprego, que é o cotidiano da vida nas cidades. Continuar lendo

O Comum: um ensaio sobre a revolução no século XXI, por Christian Laval e Pierre Dardot

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Nosso ponto de partida é que o comum é um princípio de atividade política constituído pela atividade específica da deliberação, julgamento, decisão e a aplicação de decisões. Contudo, essa, que é a mais completa definição que nós apresentamos no início do nosso livro¹, não pretende ser universal, trans-histórica e independente das condições temporais e geográficas. Em termos etimológicos (cum-munus, literalmente ‘co-obrigação’ e ‘co-atividade’), a intenção não é certamente sugerir que hoje o comum sempre carregue o mesmo significado. Em Aristóteles, o comum (koinōn) é o que resulta da atividade de agregação, que é o que constitui a cidadania, uma atividade que implica a rotação de deveres ou a alternância entre os que governam e os que são governados. Hoje, com um novo e singular tipo de energia, o movimento das praças (15M, Gezi, etc) tem enriquecido esse conceito com novas demandas. Continuar lendo

Os evangélicos e a esquerda distante: para além da derrota eleitoral

Uma diferença clara entre evangélicos e esquerda é que os primeiros se fazem muito mais presentes no interior das comunidades, têm construção social. Lá no interior profundo, totalmente distante da cidade, há poucos anos atrás até sem energia elétrica, há uma igreja. Eu cresci na roça e numa família evangélica. Fui em muitas igrejas assim. Se engana quem só demoniza essa presença como força castradora. Os evangélicos se visitam pra orar uns pelos outros — e oração aqui também deve ser entendida como exercício de espiritualidade que traz a causa do outro à memória — e se reúnem pra ajudar alguém da comunidade que está passando necessidade. Mais que isso, a fé é um impulso potencializador que motiva a pessoa a continuar lutando. No espaço das igrejas, e no caso falo mais dessas periféricas, mais orgânicas e menos burocratizadas, as pessoas podem falar, compartilham suas dificuldades, as mulheres podem falar, as crianças também participam, jovens aprendem música, muita gente aprende ler pra poder ler a bíblia. Essas coisas conquistam dignidade para essas pessoas. Elas se sentem especiais, valorizadas, acolhidas na igreja. Já vi muitos casos de famílias que mudaram muito quando o marido se converteu, parou de beber e de chegar bêbado em casa e bater na mulher, a renda da família, às vezes tão pouca, melhorou. Todos esses processos são cheios de ambivalências, mas essas coisas têm muito sentido na vida dessas pessoas. E quer ver como a favela percebe os evangélicos? “Ore por nós pastor, lembra da gente / No culto dessa noite, firmão, segue quente / Admiro os crentes, dá licença aqui / Mó função, mó tabela, pô, desculpa aí”, Racionais MC’s, Vida Loka Parte 1.

Agora, como a esquerda se faz presente na vida das comunidades? Ou pior, isso acontece? Eu, como boa parte de jovens da periferia, só fui aprender o que é esquerda e direita depois que entrei na faculdade. E vejam só, minha preocupação com justiça social surgiu na igreja, minha militância começou em coletivos evangélicos. Depois que passei pela esquerda. Sei que a maior parte das pessoas que vivem na periferia não sabem o que é esquerda e direita. O que define o voto na periferia é, na maioria das vezes, menos ideológico e mais afetivo. Sei também que a esquerda, suas lideranças e militantes, é majoritariamente composta por universitários e gente de classe média. Principalmente o PSOL. Não estou culpabilizando nem denunciando privilégios ou coisa do tipo. O que quero apontar com isso é que existe uma diferença grande de linguagem e percepção da vida entre esses grupos e as pessoas da periferia.

No caso do Rio de Janeiro há ainda uma distância territorial entre esses grupos que dificulta ainda mais o encontro entre eles. Zona sul e zona norte. Eu mudo de cidade quando atravesso o túnel Santa Bárbara. Na última vez que fui no Rio também percebi que a galera da zona norte vai muito na zona sul, mas a galera da zona sul vai muito pouco na zona norte. É mais um problema de distância entre esquerda e periferia. Claro que há muita esquerda na zona norte, mas a Praça São Salvador (ponto de encontro da esquerda carioca) ainda é na zona sul.

Acho que um primeiro passo pra uma reconstrução da esquerda depois dessa derrota geral, pra além do Rio, é reconhecer que ela tem muito pouca relação com os pobres. Por mais que pense neles, acha que defende eles, etc, há muito pouca relação pessoal entre esquerda e periferia. É necessário reconhecer que a esquerda não representa os mais pobres, não fala por eles. Fala por si mesma e conhece pouco a periferia. Talvez não precise nem criar nada. Tem muita luta rolando nas periferias. Talvez seja só um caso de ir lá, conhecer, criar relação e se dispor a ajudar.

Quando novos sujeitos já estão em cena

Discurso no colóquio Teologias da Multidão na Casa de Rui Barbosa, Rio de Janeiro, em 20/10/2016

 

Teologia e poesia são cães selvagens espreitando a beira do abismo à procura de um pouco mais de margem. São expedições sobre a borda e o quão longe podemos estendê-la. Buscam o que está além da linguagem e o que a linguagem ainda não suporta. E o que está além da linguagem por vezes é o que já esteve aquém e do que não sabemos muito sobre a origem. A teologia e a poesia percebem uma presença e tentam fazê-la aparente. São garotos na noite atacando uma mangueira com paus e pedras pra ver se conseguem derrubar uma manga. Mesmo que caia da árvore um peixe vivo. Quando a palavra toca a coisa, um mero raspão, a coisa dá sinais de existir. A palavra cria a coisa que fora da linguagem não existia para nós, mas existia. Continuar lendo

“Transformai as velhas formas de viver”

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           Francesco Salviati, Kairos und Ignudo (Sala dell’Udenzia invernale), 1552-1554,  Roma

Que a Igreja e os cristãos fabricaram um novo sagrado, esmagaram os homens, aprisionaram o homem na culpabilidade, foram reacionários e desenvolveram o poderio, formularam os piores dogmatismos, protegeram as injustiças, combateram a verdade, fizeram viver o homem num idealismo enganador (…). É a transformação de Jesus Cristo em cristianismo, da relação fraterna em instituição, da revelação em religião, da palavra em coisa, é a tomada de posse daquilo que não nos pertence. É a instalação enquanto estávamos a caminho. Isto é o que deveria ter sido questionado e obtido vitória sobre o que caracteriza nosso mundo foi finalmente subordinado ao espírito deste mundo, o poderio, o sucesso, o dinheiro, a eficácia e ao mesmo tempo o desespero. Mas precisamente, ainda que tenha sido assim, porque a esperança cristã está no âmago da verdade cristã, respondo simplesmente: “Não é obrigatório que seja sempre assim”, Jacques Ellul, Mudar de Revolução, p.279, 280. Continuar lendo

O que se perdeu de junho

Daquele evento talvez ainda saibamos muito pouco. Ou talvez fosse melhor dizer que dele aprendemos muito pouco. Ainda são muitos que seguem a buscar a melhor interpretação, a face atrás do véu. “General, agora que sabemos o que realmente aconteceu, o que devemos contar para o povo? E o que devemos pedir para o rei?” Sabemos que Junho de 2013 foi uma fratura na tela do relógio. O relógio tombou e começou a girar diferente. Junho abriu outra temporalidade política e agora parece que mais buscamos entender que tempo é esse do que vivê-lo e experimentá-lo.

O governo Dilma trabalhou para tapar a rachadura no muro, por onde uma luz se insinuava. O governo federal não fez nenhum esforço para frear a repressão violenta das ruas. Fez pior. Encomendou uma lei em regime de urgência para criminalizar as manifestações: a lei antiterrorismo, somada à lei das organizações criminosas sancionada por Dilma em pleno agosto daquele ano de insurgência. No meio disso tudo, o aparato intelectual governista reforçou e refinou o discurso que logo se tornaria consenso repressivo, a seguir desabado sobre as cabeças dos manifestantes. As manifestações foram tachadas de suspeitas e manipuladas, de fascistas, em aliança objetiva com traficantes e imperialistas. Continuar lendo