Quando novos sujeitos já estão em cena

Discurso no colóquio Teologias da Multidão na Casa de Rui Barbosa, Rio de Janeiro, em 20/10/2016

 

Teologia e poesia são cães selvagens espreitando a beira do abismo à procura de um pouco mais de margem. São expedições sobre a borda e o quão longe podemos estendê-la. Buscam o que está além da linguagem e o que a linguagem ainda não suporta. E o que está além da linguagem por vezes é o que já esteve aquém e do que não sabemos muito sobre a origem. A teologia e a poesia percebem uma presença e tentam fazê-la aparente. São garotos na noite atacando uma mangueira com paus e pedras pra ver se conseguem derrubar uma manga. Mesmo que caia da árvore um peixe vivo. Quando a palavra toca a coisa, um mero raspão, a coisa dá sinais de existir. A palavra cria a coisa que fora da linguagem não existia para nós, mas existia. Continuar lendo

“Transformai as velhas formas de viver”

salviati

           Francesco Salviati, Kairos und Ignudo (Sala dell’Udenzia invernale), 1552-1554,  Roma

Que a Igreja e os cristãos fabricaram um novo sagrado, esmagaram os homens, aprisionaram o homem na culpabilidade, foram reacionários e desenvolveram o poderio, formularam os piores dogmatismos, protegeram as injustiças, combateram a verdade, fizeram viver o homem num idealismo enganador (…). É a transformação de Jesus Cristo em cristianismo, da relação fraterna em instituição, da revelação em religião, da palavra em coisa, é a tomada de posse daquilo que não nos pertence. É a instalação enquanto estávamos a caminho. Isto é o que deveria ter sido questionado e obtido vitória sobre o que caracteriza nosso mundo foi finalmente subordinado ao espírito deste mundo, o poderio, o sucesso, o dinheiro, a eficácia e ao mesmo tempo o desespero. Mas precisamente, ainda que tenha sido assim, porque a esperança cristã está no âmago da verdade cristã, respondo simplesmente: “Não é obrigatório que seja sempre assim”, Jacques Ellul, Mudar de Revolução, p.279, 280. Continuar lendo

O que se perdeu de junho

Daquele evento talvez ainda saibamos muito pouco. Ou talvez fosse melhor dizer que dele aprendemos muito pouco. Ainda são muitos que seguem a buscar a melhor interpretação, a face atrás do véu. “General, agora que sabemos o que realmente aconteceu, o que devemos contar para o povo? E o que devemos pedir para o rei?” Sabemos que Junho de 2013 foi uma fratura na tela do relógio. O relógio tombou e começou a girar diferente. Junho abriu outra temporalidade política e agora parece que mais buscamos entender que tempo é esse do que vivê-lo e experimentá-lo.

O governo Dilma trabalhou para tapar a rachadura no muro, por onde uma luz se insinuava. O governo federal não fez nenhum esforço para frear a repressão violenta das ruas. Fez pior. Encomendou uma lei em regime de urgência para criminalizar as manifestações: a lei antiterrorismo, somada à lei das organizações criminosas sancionada por Dilma em pleno agosto daquele ano de insurgência. No meio disso tudo, o aparato intelectual governista reforçou e refinou o discurso que logo se tornaria consenso repressivo, a seguir desabado sobre as cabeças dos manifestantes. As manifestações foram tachadas de suspeitas e manipuladas, de fascistas, em aliança objetiva com traficantes e imperialistas. Continuar lendo