O Comum: um ensaio sobre a revolução no século XXI, por Christian Laval e Pierre Dardot

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Nosso ponto de partida é que o comum é um princípio de atividade política constituído pela atividade específica da deliberação, julgamento, decisão e a aplicação de decisões. Contudo, essa, que é a mais completa definição que nós apresentamos no início do nosso livro¹, não pretende ser universal, trans-histórica e independente das condições temporais e geográficas. Em termos etimológicos (cum-munus, literalmente ‘co-obrigação’ e ‘co-atividade’), a intenção não é certamente sugerir que hoje o comum sempre carregue o mesmo significado. Em Aristóteles, o comum (koinōn) é o que resulta da atividade de agregação, que é o que constitui a cidadania, uma atividade que implica a rotação de deveres ou a alternância entre os que governam e os que são governados. Hoje, com um novo e singular tipo de energia, o movimento das praças (15M, Gezi, etc) tem enriquecido esse conceito com novas demandas. Continuar lendo

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alter-alteridade

Os tempos são difíceis e as disputas intensas. Sempre clamamos por alteridade, mas, na maioria das vezes essa ideia é romantizada numa concepção moral de diálogo cordial. Alteridade é a presença da diferença, contraste, distinção. Aquilo que rompe com meu ‘mesmo’ e me coloca diante do que é ‘outro’. É arrombamento do estrangeiro nas paredes da minha identidade. Como ser hospitaleiro e não ver o outro como ameaça? Como permitir a liberdade daquilo que não é continuidade do meu mundo? Imaginando o pensamento como território, a alteridade me desterritorializa e me reterritorializa em outro lugar. Me arranca as raízes com terra e tudo e me joga no mar. Me deixa boiar até uma terra nova. E se tratando de democracia, essa palavra tem mais a ver com a permissão do conflito, do dissenso, do que com o conforto de fazer das muitas faces espelhos; do que abafar tudo sob uma bandeira. Nunca foi sinônimo de tolerância e permissão da opressão, mas, pelo contrário, dar a pensar a afirmação da presença do que é proibido de estar presente.

O atrito dos encontros faz ferver os afetos. Desde o amor ao ódio. E todos temos paixões e somos movidos por elas. Porém, o que floresce desde o semear da palavra sem volta? Na pluralidade das lutas, não há dor que dói menos e é difícil senti-las todas, lembrá-las todas. Não sei quantas dores podem ocupar o mesmo lugar. Mas quanto mais braços, mais leve o fardo. Melhor o zunir do enxame, que a cor opaca da colmeia. Melhor a mata cheia que a solidão do preto e branco do pardal. Quando o que motiva a palavra é a repressão, melhor o encontro dos lábios. “A melhor tradução é o beijo”. No vuco-vuco é melhor entrar no bolo e achar uma rodinha pra dançar que subir pra laje e ficar jogando pedras.

É mais produtivo buscar pontos comum e menos rixas. Se constituir mais pela afirmação do que se acredita do que pela negação do que não se acredita. Colaborar mais no que for possível e criticar menos (o que não quer dizer não criticar). Ninguém está além, tampouco isento.

Imobilismo em repetição

A indignação não pode ser contida por uma identidade qualquer. Uma indignação nasce da percepção de uma alteridade e aponta para o porvir, como ruptura do instante presente. Ela é kairós, ruma para abrir o campo dos possíveis, desapegando-se da série causal que leva do passado ao presente, da segmentariedade dura do já instituído como linearidade temporal e homogênea. Esse tipo de indignação, hoje, está transbordando dos aparelhos que se declaram revolucionários, e se espalha pelo corpo social de diversas maneiras. Inclusive, ao insurgir-se contra os próprios aparelhos que, muitas vezes, operam como imobilizadores.

“Conservadorismo” é um predicado disputado por diferentes sujeitos na atual crise política brasileira. De tanto que tem sido puxado para a esquerda, irritantemente, ele avermelhou. A luta pela conservação do espaço de poder e seus privilégios sob a justificativa de vedação ao retrocesso não faz sentido quando percebemos que já retroagimos muito politicamente, se fizermos uma mínima genealogia do estado Continuar lendo