3 notas sobre eleições

1. A derrota nas eleições não pode ser percebida como derrota total. No que observo do que se escreveu depois das derrotas da esquerda, há um tom de ultimato. Como se depois das derrotas nas eleições tivéssemos que reerguer um castelo que está em ruínas. Penso que enquanto os modos de organização das lutas sociais (e me questiono o quanto posso usar “esquerda” como um signo pra isso) forem tão focados no Estado, na disputa pelo governo, muitas outras lutas que estão além disto serão perdidas. As eleições podem ser uma parte da luta, uma via estratégica, mas, não é tudo. É preciso ter um olhar mais distanciado do governo e cultivar mais o pensamento sobre a autonomia. Digo, é preciso uma desidentificação maior com o poder para funcionar melhor “fora” dele. “Fora”, entre aspas, porque o conjunto das instituições financiadas com dinheiro de impostos, o Estado, não é uma transcendência da qual o ‘social’ está fora. O Estado não tem tanta unidade e homogeneidade quanto a capenga filosofia política moderna pensou. Existe tensão entre essas instituições que o compõem. Ocupar um posto de comando não é mais que assumir uma posição estratégica. Se não há gente mais alinhada às lutas sociais ocupando estes postos, as lutas não param por causa disso.

2. Eu acho meio inútil todo discurso que tenta constituir um modo único de pensamento e ação; um discurso monolítico e não político. Lembro de Rancière que diz que só existe política quando há dissenso e no consenso há apenas governo. É inútil porque a unidade simplesmente não acontece. Os grupos e pessoas são heterogêneos, as vontades são diversas. E isso não é bom ou ruim. Isso é assim. Ao invés de tentarmos redesenhar um novo corpo ideal do que a esquerda deve ser a partir de agora, penso ser mais interessante simplesmente continuar organizando ações, agrupamentos, mobilizações, instituições, etc. Ir se espalhando, deixando que os grupos se espalhem, criando relações e trocas entre eles. Penso que é necessário multiplicar mais, espalhar mais. Chegar a alcançar um ponto de maior intensidade nas relações de poder, como a presidência, é um efeito da soma de muitos processos menores.

3. Não existe manifestação certa e errada nem é uma questão de legitimidade. As manifestações estão acontecendo. Estão aí. Elas colocam demandas, expressam a indignação social, criam arranjos, novos agrupamentos, tendências, etc. Simplesmente condenar as manifestações “verde-amarelas” não ajuda em nada; só aprofunda um abismo no qual estamos caindo. A esquerda tem funcionado sempre com essa negação de seu “outro”, esse ressentimento. Eu acho melhor tentar explorar mais algumas pautas como a corrupção, a destituição das castas, etc. E talvez tenhamos que fazer isso apesar da esquerda.

Os evangélicos e a esquerda distante: para além da derrota eleitoral

Uma diferença clara entre evangélicos e esquerda é que os primeiros se fazem muito mais presentes no interior das comunidades, têm construção social. Lá no interior profundo, totalmente distante da cidade, há poucos anos atrás até sem energia elétrica, há uma igreja. Eu cresci na roça e numa família evangélica. Fui em muitas igrejas assim. Se engana quem só demoniza essa presença como força castradora. Os evangélicos se visitam pra orar uns pelos outros — e oração aqui também deve ser entendida como exercício de espiritualidade que traz a causa do outro à memória — e se reúnem pra ajudar alguém da comunidade que está passando necessidade. Mais que isso, a fé é um impulso potencializador que motiva a pessoa a continuar lutando. No espaço das igrejas, e no caso falo mais dessas periféricas, mais orgânicas e menos burocratizadas, as pessoas podem falar, compartilham suas dificuldades, as mulheres podem falar, as crianças também participam, jovens aprendem música, muita gente aprende ler pra poder ler a bíblia. Essas coisas conquistam dignidade para essas pessoas. Elas se sentem especiais, valorizadas, acolhidas na igreja. Já vi muitos casos de famílias que mudaram muito quando o marido se converteu, parou de beber e de chegar bêbado em casa e bater na mulher, a renda da família, às vezes tão pouca, melhorou. Todos esses processos são cheios de ambivalências, mas essas coisas têm muito sentido na vida dessas pessoas. E quer ver como a favela percebe os evangélicos? “Ore por nós pastor, lembra da gente / No culto dessa noite, firmão, segue quente / Admiro os crentes, dá licença aqui / Mó função, mó tabela, pô, desculpa aí”, Racionais MC’s, Vida Loka Parte 1.

Agora, como a esquerda se faz presente na vida das comunidades? Ou pior, isso acontece? Eu, como boa parte de jovens da periferia, só fui aprender o que é esquerda e direita depois que entrei na faculdade. E vejam só, minha preocupação com justiça social surgiu na igreja, minha militância começou em coletivos evangélicos. Depois que passei pela esquerda. Sei que a maior parte das pessoas que vivem na periferia não sabem o que é esquerda e direita. O que define o voto na periferia é, na maioria das vezes, menos ideológico e mais afetivo. Sei também que a esquerda, suas lideranças e militantes, é majoritariamente composta por universitários e gente de classe média. Principalmente o PSOL. Não estou culpabilizando nem denunciando privilégios ou coisa do tipo. O que quero apontar com isso é que existe uma diferença grande de linguagem e percepção da vida entre esses grupos e as pessoas da periferia.

No caso do Rio de Janeiro há ainda uma distância territorial entre esses grupos que dificulta ainda mais o encontro entre eles. Zona sul e zona norte. Eu mudo de cidade quando atravesso o túnel Santa Bárbara. Na última vez que fui no Rio também percebi que a galera da zona norte vai muito na zona sul, mas a galera da zona sul vai muito pouco na zona norte. É mais um problema de distância entre esquerda e periferia. Claro que há muita esquerda na zona norte, mas a Praça São Salvador (ponto de encontro da esquerda carioca) ainda é na zona sul.

Acho que um primeiro passo pra uma reconstrução da esquerda depois dessa derrota geral, pra além do Rio, é reconhecer que ela tem muito pouca relação com os pobres. Por mais que pense neles, acha que defende eles, etc, há muito pouca relação pessoal entre esquerda e periferia. É necessário reconhecer que a esquerda não representa os mais pobres, não fala por eles. Fala por si mesma e conhece pouco a periferia. Talvez não precise nem criar nada. Tem muita luta rolando nas periferias. Talvez seja só um caso de ir lá, conhecer, criar relação e se dispor a ajudar.

O que se perdeu de junho

Daquele evento talvez ainda saibamos muito pouco. Ou talvez fosse melhor dizer que dele aprendemos muito pouco. Ainda são muitos que seguem a buscar a melhor interpretação, a face atrás do véu. “General, agora que sabemos o que realmente aconteceu, o que devemos contar para o povo? E o que devemos pedir para o rei?” Sabemos que Junho de 2013 foi uma fratura na tela do relógio. O relógio tombou e começou a girar diferente. Junho abriu outra temporalidade política e agora parece que mais buscamos entender que tempo é esse do que vivê-lo e experimentá-lo.

O governo Dilma trabalhou para tapar a rachadura no muro, por onde uma luz se insinuava. O governo federal não fez nenhum esforço para frear a repressão violenta das ruas. Fez pior. Encomendou uma lei em regime de urgência para criminalizar as manifestações: a lei antiterrorismo, somada à lei das organizações criminosas sancionada por Dilma em pleno agosto daquele ano de insurgência. No meio disso tudo, o aparato intelectual governista reforçou e refinou o discurso que logo se tornaria consenso repressivo, a seguir desabado sobre as cabeças dos manifestantes. As manifestações foram tachadas de suspeitas e manipuladas, de fascistas, em aliança objetiva com traficantes e imperialistas.

Como já se disse por aí, não era suficiente acabar com Junho em si; era necessário matá-lo duas vezes, a primeira nos fatos, depois a memória. A segunda morte veio da esquerda. Os apologetas da esquerda promoveram uma inquisição contra a heresia e profanação que brotavam na juventude. A poesia e a experimentação das ruas foram atacadas pela linguagem normativa e castradora de analistas marxistas, guardiões da sã doutrina e da técnica do bom governo. E, principalmente, na desonesta campanha eleitoral de Dilma em 2014, quando uma montanha de fatos, valores e consequências foi chapada em análises prosaicas de correlação de forças entre grupos e partidos, sob a sombra invocada da volta do neoliberalismo ao poder. O que acabou acontecendo, mas não pelas razões contidas nessas análises. Como se pudéssemos, a rigor, falar em “volta”. Foi mobilizado o medo, o jogo perde-perde do “menos pior”, a hipocrisia da falsa esperança: “fique, mas melhore”. A esquerda se uniu à lógica securitária do neoliberalismo: não há alternativa. Teme os riscos de aberturas em que precisaria descer à praça e travar a disputa. Muitas vezes, a esquerda é conservadora. Não se expõe a qualquer risco que possa ameaçar o que está instituído e já tem.

A esquerda petista (e seus aliados), enfim, além de tudo é cínica e cronicamente oportunista.  A esquerda petista jogou 13 anos pela realpolitik e nela foi derrotada e agora chora porque julga ter sofrido uma injustiça. Mas não era o jogo da correlação de forças que jogava? E as injustiças não eram praticadas em nome desse mesmo realismo político? Com qual facilidade se mudam os posicionamentos em função da conveniência, para quem se diz protetor de altos valores que estariam ameaçados, por coincidência, só agora. Depois que perdeu na brincadeira, chora lágrimas de crocodilo dizendo que não foi legal estar do lado perdedor. Chamou de jogo da direita quando uma parte da esquerda abriu a chamada por novas eleições para, meses depois, encampá-la ela mesma. Agora apeada do poder decidiu que podia, que voltou a valer falar em novas eleições.

Mas, considerando que a esquerda acaba jogando contra si própria, não quero ficar aqui somente repetindo as críticas a ela. O que já fiz, por exemplo, no ensaio Imobilismo em repetição.  Quero aqui apenas acrescentar outra provocação para aqueles que sonharam com Junho de 2013 e não querem deixar essa horta à míngua, já quase seca, quase morrendo. Porém, que fazer quando os próprios devotos do santo contribuem para que a sua mensagem não se realize e se mantenha preservada no altar? Os devotos parecem preferir preservar a memória cristalizada numa imagem inerte do que dar seguimento ao acontecimento que lhe revelou uma verdade.

Junho não foi apenas a irrupção de uma nova percepção política, o abalo das estruturas de governo, e um consequente rearranjo das correlações de forças. E sei que o “apenas”, na frase anterior, está sobrando. Pelo contrário, eu deveria ter escrito: foi ainda mais do que tudo isso. Junho também foi uma experimentação intensiva de novas práticas urbanas e organizativas. Foi um laboratório de criação, um ateliê onde eram talhadas novas formas de vida. Muitos coletivos e quase-coletivos surgiram, assembleias eram realizadas a todo momento, pulsava uma comunicação transversal entre grupos os mais diferentes, aconteciam ocupações criativas em diversos espaços, a produção intelectual introduzia uma linguagem e uma estética inovadoras. O que restou de tudo isso? O que frutificou?

Aquela juventude de Junho ou das escolas ocupadas foi quem melhor deu seguimento ao que aconteceu em 2013. Foram os que não se renderam ao jogo macropolítico, às disputas em torno do poder do estado, à escolha do melhor gerente para a crise de todos os dias e que vai piorar. Foram os que não se resignaram ao papel de espectador de um teatro ou, na melhor das hipóteses, seus comentadores mais ou menos histéricos. Eles ousaram criar, experimentar, se expor ao risco de intervir mais diretamente na construção do mundo e da existência de cada um neste mundo. No sentido mais material de transformar a relação com o lugar em que se está e o uso que se faz do tempo. Ou seja, colocaram seus corpos como forças criativas, imediatamente políticas. Mas, para quem é gente grande, cheia de credenciais, já crescida em certezas e imagens, que já traçou as suas leituras e experiências pela rota certa e de antemão homologada, aqueles que quando falam de política lembram velhos marinheiros carrancudos, todos esses padecem mesmo é de uma segunda ingenuidade.

Uma boa alegoria para a esquerda hoje seria a de um personagem do Processo kafkiano, a do camponês que está diante da Lei. Passa toda a sua vida esperando a permissão para entrar pela porta onde só ele poderia entrar. E não entra. Que regime de espera seria esse, a da tomada do estado pela via que seja? A da manutenção eterna do governo em nome da governabilidade até virar governismo? Podemos usar esse conto relatado no livro de Kafka como uma alegoria para pensar o tempo. Não estou interessado aqui em repassar as variadas interpretações sobre a obra dele. O que quero apenas anotar de relance é a relação entre o personagem do camponês e o portão da Lei. Sejam lá quais forem as significações possíveis para a Lei, quero pensá-la como um novo regime de temporalidade que só a esquerda poderia adentrar, que a define, afinal é a esquerda que busca o “movimento real que supera o atual estado de coisas”, segundo a definição que Marx e Engels dão ao comunismo no livro A Ideologia Alemã. Mas como mudar esse regime para que não seja uma espera impotente? Para que essa temporalidade seja uma nova relação com os territórios e o tempo de modo mais imanente, direto e produtivo?

Uma das questões centrais a se abordar está naquela fronteira de tensão estudada pelo direito entre organização e caos, segurança e liberdade, instituído e instituinte, estabilidade e instabilidade. Nessa zona incerta “entre” os polos bem definidos, entra em jogo diretamente a disposição do nosso corpo em uma situação de risco, de risco inclusive físico. E isto não é simplesmente enfrentar a polícia. Nós tentamos organizar a nossa vida de modo que possamos gozar minimamente de algum nível de segurança em vários sentidos. Para isso, abrimos mão de coisas que realmente nos fazem sentido. Como no poema Autonomia, da poeta polaca Wislawa Szymborka:

“Diante do perigo, a holotúria se divide em duas: / deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo, / salvando-se com a outra metade”. E não há problema de que seja assim.

No capítulo de Mil Platôs (ed. 34), “Como criar para si um Corpo sem Órgãos”, Deleuze e Guattari lidam com esse problema e argumentam que corpo nenhum suportaria o gozo infinito. Precisamos de algum nível de organização enquanto estratégia. Porque ninguém suporta totalmente o caos nem ele seria capaz de produzir o que quer que seja enquanto se resumir a ser caos. E a nossa liberdade depende do quanto de caos se é capaz de suportar segundo uma relação produtiva. Não posso dizer que sempre foi assim e sempre vai ser porque talvez estejamos oferecendo mais da metade do que poderíamos, mais da metade do conatus para ser então devorado pela máquina do mundo. De modo que vivemos com menos, talvez muito menos do que a metade. Posso dizer que a fatia do que conseguirmos fazer fugir depende do risco a que nos expusermos e da boa relação estabelecida com ele.

Para não sermos levados a perceber isso como fatalidade, quero lembrar a possibilidade de outra forma de segurança que não é aquela da técnica e das instituições securitárias. Não se pode perder de vista como são importantes laços fortes de fraternidade de modo que tenhamos com quem contar. É preciso não ter medo de aceitar a ajuda, pois a vida se dá na interdependência. É preciso cultivar a colaboração e a ajuda mútua e esta é a forma de vida capaz de vencer diversas limitações impostas à vida pelo capitalismo. Era como viviam os primeiros discípulos de Jesus narrados pelo livro de Atos: “E era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns”, Atos 4:32. É como vivem os índios, os zapatistas, e muitas outras comunidades. Nesse caso, o risco consiste em confiar no outro. Não temer acolher o outro nem o perceber como ameaça.

Podemos perceber Junho de 2013, as escolas ocupadas, as acampadas de Puerta del Sol do 15-M, o movimento Occupy Wall Street, a Praça Tahrir etc, como conselhos de um tipo novo. Para Walter Benjamin, no ensaio O Narrador, um conselho consiste em “fazer uma sugestão sobre a continuação de uma história que está sendo narrada”. Jeanne Marie Gagnebin comenta a mesma frase dizendo que “esta bela definição destaca a inserção do narrador e do ouvinte dentro de um fluxo narrativo comum e vivo, já que a história continua, que está aberta a novas propostas e ao fazer junto”.

Todos os acontecimentos citados sugeriram uma forma de dar seguimento à história em que estava presente o fazer coletivo, a colaboração mútua, o encontro. Para dar continuidade a esta narração, salvemos uns aos outros.

Uma outra concepção de Esquerda e Direita

Quando se fala em capitalismo, deve-se incluir implicitamente que também está se falando do Estado. Ambos são gestados juntos entre os séculos XVI e XVIII com base na acumulação de riqueza oriunda da colonização e tráfico de escravos (mercantilismo). Não existe um sem o outro. O Estado sempre teve um papel central como regulador no capitalismo. E estamos falando aqui do Estado-nação moderno, fundado teoricamente sobre abstrações como soberania, “povo”, território, contrato social. O mesmo Estado democrático de Direito.

11750646_959669290763296_2346958592338692673_nPortanto, o dualismo entre Esquerda/Estado/igualdade/coletivo e Direita/mercado/liberdade/indivíduo não funciona. A história mostra que o Estado não foi capaz de gerar igualdade e o Mercado não gerou mais liberdade. O Estado gerou hierarquias e ajudou a aprofundar o foço entre ricos e pobres, como faz o BNDES no Brasil, transferindo renda de pobres para os ricos. Por exemplo, o financiamento que vai para indústrias, como os R$ 200 bilhões destinados pro agronegócio esse ano ou a grana que banca os cursos de medicina pros filhos da elite. E o Mercado não gerou liberdade. Temos um tempo cada vez mais controlado. Quando não estamos trabalhando, estamos buscando qualificações para trabalhar.

Estou colocando “Mercado” com letra maiúscula porque quero me referir às grandes empresas em conluio com o Estado. “Grandes”, porque isso também acontece em nível estadual e municipal. Mas, não me refiro às trocas livres, que penso poderem ter hoje um papel importante na construção de autonomia das lutas porque é uma forma de geração de riqueza, o que é poder. Por exemplo, os movimentos sempre fazem camisetas, livros, festas, etc, pra financiar suas atividades. Se a esquerda largar de neura com as práticas de mercado livre, agorista (de ágora), mutualista, pode construir muito mais força.

Uma concepção que tenho pensado sobre direita e esquerda e que acho interessante é a da esquerda como aquela que produz caos, turbulências, para criar liberações e linhas de fuga dos aparelhos de controle (quais? A PM, as burocracias partidárias centralistas, a jornada de trabalho, a família patriarcal, etc); e através da produção de caos e desterritorializações cria espaços-tempos que possibilitam reterritorializações, reorganizações, mais autônomas. Digo, a abertura de um tempo para uma nova forma de reorganizar o caos.

E a direita… Aquela que se defende e busca conservar as coisas como estão. Afinal, o futuro é contra ela.

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Imobilismo em repetição

A indignação não pode ser contida por uma identidade qualquer. Uma indignação nasce da percepção de uma alteridade e aponta para o porvir, como ruptura do instante presente. Ela é kairós, ruma para abrir o campo dos possíveis, desapegando-se da série causal que leva do passado ao presente, da segmentariedade dura do já instituído como linearidade temporal e homogênea. Esse tipo de indignação, hoje, está transbordando dos aparelhos que se declaram revolucionários, e se espalha pelo corpo social de diversas maneiras. Inclusive, ao insurgir-se contra os próprios aparelhos que, muitas vezes, operam como imobilizadores.

“Conservadorismo” é um predicado disputado por diferentes sujeitos na atual crise política brasileira. De tanto que tem sido puxado para a esquerda, irritantemente, ele avermelhou. A luta pela conservação do espaço de poder e seus privilégios sob a justificativa de vedação ao retrocesso não faz sentido quando percebemos que já retroagimos muito politicamente, se fizermos uma mínima genealogia do estado presente. Por isso, tampouco faz sentido um discurso de preservação de um “Estado democrático de Direito” que é concomitante com a repressão policial contra adolescentes que protestam por educação.

Mesmo não sendo possível perceber a esquerda como um todo homogêneo, já que no seu interior há os mais diversos posicionamentos , é preciso tensionar este signo, “esquerda”, até o seu limite extremo. É preciso analisar a sua tendência à reprodução do mesmo. Os métodos/formas tradicionais assumidos pela esquerda e a sua constante reorganização em busca de purificação do conteúdo não afastam a possibilidade de incidir nos mesmos erros e replicá-los.

Numa entrevista oferecida em 1975, Foucault fala sobre os movimentos revolucionários marxistas e diz que “[…] para poder lutar contra um Estado que não é apenas um governo, é preciso que o movimento revolucionário se atribua o equivalente em termos de forças político-militares, que ele se constitua, portanto, como partido, organizado – interiormente – como um aparelho de Estado, com os mesmos mecanismos de disciplina, as mesmas hierarquias, a mesma organização de poderes […]”. Este modelo do Estado-nação moderno discutido por Foucault foi erigido sob a racionalidade iluminista europeia, que se pretendeu a única universal, uma razão colonizadora que não acolheu as diferenças das raças, as suas tradições e saberes. Impôs a verdade de sua ciência, seus padrões estéticos e culturais, a todos os países que dela se serviram em seus projetos colonizatórios. É um tipo de racionalidade que não suporta a diferença e busca eliminá-la onde quer que apareça, homogeneizando o corpo em que se aplica.

O Estado é também uma instituição militarizada, instituído violentamente pela tomada de território. Andityas Soares, falando sobre o nómos da terra na obra do jurista alemão Carl Schmitt, diz que“toda ordenação normativa depende de uma prévia violência, consistente na tomada da terra. Ordem (Ordnung) e localização (Ortung) são co- extensivos” (MATOS, 2014, p. 260). E como uma instituição militar, o Estado precisa da homogeneidade do corpo social para seu comando funcionar eficientemente. Todos devem pensar igual e estar a par de todas as ordens.

A racionalidade regida pela disciplina unificadora, a necessidade da homogeneidade como condição de funcionamento é uma característica não só interna também às organizações de esquerda, como, além disso, na maneira como esta lida com o seu exterior. Faz isso patrulhando reativamente quem a contraria, ou pior, mesmo quando não a contrariam diretamente, “desconstroem” aqueles que apenas se colocam num caminho alternativo. Não devemos desconsiderar a complexidade dos sujeitos e agenciamentos que atravessam essas organizações, na produção incessante de diferenças em suas tramas micropolíticas; porém, quando levada ao plano da macropolítica, a esquerda achata e esmaga todas essas complexidades em seus discursos e práticas oficiais.

No atual contexto político brasileiro, é importante atentar para o problema que o fascismo, tão apontado nos movimentos pró-impeachment, atravessa também a militância pró-governo. Esta última se apresenta tão reativa e autoritária quanto a primeira, impossibilitando qualquer diálogo. Estou falando de fascismo no sentido de um comportamento movido por afetos negativos que buscam a aniquilação do outro, a negação absoluta daquele que é diferente, da própria alteridade como relação possível. E este tipo de conduta está presente nos dois grandes polos da polarização política atual. Dois opostos correlatos, que apesar disso compartilham características muito parecidas no modo de agir e reagir. Não é possível que alguma democracia emerja de um terreno tão entrincheirado, onde não há nenhum senso de alteridade.

Porém, no campo da esquerda existe uma tradição de pensamento e prática mais consolidada. Por isso, é aí que se constata um apego às identidades mais forte, duro, autorreferenciado. Já se estabeleceu uma doxa determinante do que é e o que não é esquerda. Tudo o que fuja do padrão será tachado como fascista, golpista, liberal. Em um texto publicado em 1996, na Folha de São Paulo, intitulado “O pensamento que resiste à ordem”, Antonio Negri descreve que a “doxa” é:

“um sistema ordenado de interpretação do mundo, uma ‘historia rerum gestarum’ consolidada, uma lógica do passado que justifica o presente e pretende aprisionar o tempo futuro no seu sistema. Quando, por exemplo, no pensamento único da pós-modernidade, declara-se o ‘fim da história’ e se coloca a impossibilidade de alternativas ao ‘estado atual das coisas existentes’, estamos falando de ‘doxa’. […] ‘doxa’, código, justificação do presente, fechamento do futuro, conservação, pensamento das elites dominantes”.

É exatamente o que tem acontecido na esquerda, principalmente aquela governista: uma análise que faz analogia com eventos do passado, como o golpe que levou à ditadura em 1964, apenas para justificar a manutenção do atual governo em detrimento de qualquer outra alternativa, qualquer possibilidade que poderia abrir uma outra brecha, outra perspectiva ao porvir das lutas. A reação imediata às críticas feitas ao governo são imediatamente taxativas: “Fascistas! golpistas!”. Existe um patrulhamento da diferença por parte da esquerda que busca eliminar tudo o que foge à sua lógica. A eliminação de dissenso e a consequente produção de consenso minam toda a possibilidade de política, transformando-a em polícia, para usar os conceitos de Jacques Rancière:

“A polícia é assim, antes de mais nada, uma ordem dos corpos que define as divisões entre os modos do fazer, os modos de ser e os modos do dizer, que faz com que tais corpos sejam designados por seu nome para tal lugar e tal tarefa; é uma ordem do visível e do dizível que faz com que essa atividade seja visível e outra não o seja, que essa palavra seja entendida como discurso e outra como ruído” (RANCIÈRE, 1996, p. 42).

Esta é a forma da relação da esquerda com outras formas de luta que não carreguem a sua carga de identidades. É o que vem acontecendo com as lutas sociais no Brasil desde junho de 2013, por meio da desqualificação e o enquadramento dessas lutas como reacionárias, golpistas, fascistoides, por parte da esquerda institucionalizada. Clarissa Naback e Alexandre Mendes falam no texto “Vertigens de junho” sobre uma vertente das jornadas de junho que criou uma proliferação de novas formas de lutas e organização praticadas por diferentes sujeitos (usuários de transporte público, professores, moradores ameaçados de remoção, garis) e dizem que:

“de 2014 em diante, o governo federal e boa parte da esquerda brasileira trabalharam para aniquilar a primeira vertente de junho. Primeiro, organizaram uma máquina repressiva que inviabilizou a permanência dos manifestantes nas ruas e nas redes, através do uso da força e da disseminação do medo e da vigilância. Segundo, organizou uma máquina de marketing eleitoral que dessubjetivou e chantageou a insurgência, transformando-a no bastião de uma defesa do ‘menos pior’, de ataque aos ‘pessimildos’ (a insurgência mesma!) e de uma guinada à esquerda que nunca viria a acontecer. Por adesão entusiasta, medo, inércia ou defesa de uma identidade de esquerda (comunitarismo/tradicionalismo), quase nada escapou ao buraco negro do governismo”.

Todos os problemas colocados por essas lutas são reconduzidos pela esquerda partidária às suas pautas tradicionais, a seus aparelhos de representação, aos seus próprios projetos e campanhas. A potência dos sujeitos em luta é sugada pela representação institucional. Não há perspectiva de micropolítica e construção institucional desde a produtividade social, desde o trabalho vivo dos movimentos. Por exemplo, como as reivindicações por mais democracia, a recusa das representações políticas existentes, a afirmação das vozes de identidades marginalizadas dos espaços políticos, elas foram canalizadas para uma campanha exigindo uma assembleia constituinte, o “Plebiscito Popular pela Constituinte”. Uma vez Dilma eleita, em 2014, não se falou mais disso.

A experiência de luta produzida desde junho de 2013, as relações e projetos comuns construídos foram canalizados para os velhos métodos e formas da esquerda. No mesmo texto aqui citado, Negri diz que:

“o pensamento único reformou a interpretação do real reconduzindo-a à ‘doxa’, porque não fazer da polícia além de um órgão de administração também um órgão do pensamento? E vice-versa: uma vez alcançada a convicção de que a polícia é um órgão do pensamento, porque não deixar cair essa dignidade na polícia como órgão de administração? Por outro lado, na sociedade em que entramos, ou na qual estamos entrando (pós-fordista na organização do trabalho social, pós-moderna nos valores culturais, liberal sob o ponto de vista da organização política) o poder não pode equacionar entre ‘doxa’ e polícia”.

Há uma crença generalizada que ser revolucionário é seguir a via da esquerda, como uma determinação a priori. Fora disso só existe heresia. E dá-lhe tribunal inquisitório, a partir de centros de autoridade que determinam a verdade. Onde há liberdade não pode haver heresia. E não é de hoje que a heresia, a heterodoxia, é uma forma de resistência na história.

Na oitava tese de suas dez sobre política, Rancière diz o seguinte:

“O trabalho essencial da política é a configuração do seu próprio espaço. Este trabalho consiste em dar a ver o mundo dos sujeitos e das suas operações. A essência da política é a manifestação de um dissenso, como presença de dois mundos num só”.

Neste sentido, a diferença é característica constitutiva da política e da democracia. Isto não tem nada ver com permissão ao fascismo da extrema-direita, mas com a recusa da lógica centralizadora e militarizada do Estado nas relações sociais. Abertura pro diálogo com o Outro e com sua indignação, possibilitando uma construção do comum entre os diferentes, a partir de pautas sociais que atravessem realidades compartilhadas. Uma barreira a isso está no fato que ser de esquerda passou a ser determinado por uma correspondência a priori com os símbolos e discursos tradicionais, com as identidades, e não com o compartilhamento de pautas políticas comuns. Bruno Cava disse o seguinte sobre esse identitarismo de esquerda:

“É que ser de esquerda parece ter se transformado num bem em si. Lênin falava da colina pra onde o esquerdismo ruma. De cima da colina, assiste à azáfama da multidão, daqueles que não ascenderam a seus valores. É como se, com o fim de qualquer potência da fé, restasse acreditar nos símbolos, nas bandeiras, numa memória fugidia e vaga de tempos melhores. A fé é assim drenada de potência e o vínculo com o mundo se dissolve num plano moral, na justiça da História. Quanto mais fraco o vínculo, mais drástico e desesperado o apego aos próprios símbolos. Daí marchas cuja única pauta é defender uma cor, uma fraseologia, uma sigla.”

Isto se torna ainda mais problemático quando essas organizações passam a ocupar cargos do governo. Daí faz-se de tudo para a preservação do privilégio. Em defesa do governo, a lógica do “menos pior”, que venceu a todos nas eleições de 2014, é reavivada: “pior que o petismo é o antipetismo”. E ser antipetista é “fazer o jogo mais sórdido da direita!”, é ser traidor do governo que nos trai diariamente. Quando na verdade nós somos muito pouco antipetistas e precisamos de um antipetismo mais forte, capaz de libertar os nossos desejos que foram capturados pelo governismo e suas articulações discursivas do medo; que nos liberte deste apego sentimental e melancólico a um governo que tem deixado e feito morrer os mais fracos, esfacelando os serviços públicos, protegendo as empresas, garantindo lucros altíssimos para os bancos e todas as outras merdas que estamos vendo acontecer por aí. Enquanto o governismo nos mobiliza para garantir sua governabilidade e legitimidade, nos colocando a lutar por ele, toda essa potência que poderia ser canalizada para a construção de alternativas é totalmente domesticada.

Em um dos áudios presidenciais vazados, Lula falava para mobilizar as mulheres para protestar contra um promotor de Rondônia. Mais um exemplo de como as pautas identitárias são mobilizadas em favor da estrutura e dos interesses do poder. É interessante também perceber nos áudios como os próprios militantes coordenados pelo Lula se veem como soldados a seu dispor e como o Lula se percebe num lugar de poder que “pode botar fogo no Brasil”. A organização da esquerda governista mais parece a formação de um exército particular, que recebe ordens por e-mail e tem que cumpri-las. Plenárias nacionais com os militantes servem só para passar as coordenadas para as lideranças locais repassarem à base. Assim, não é a população indignada que é massa de manobra. Massa de manobra mesmo é essa militância.

Os grupos que dizem “não apoio o PT, mas” e vão numa manifestação em contexto de polarização e governo sob ameaça que não seria uma manifestação em defesa do governo (ironia), mas da “democracia e dos direitos”, costumam dizer “ah, mas as pautas sociais estavam todas lá! A crítica é feita!” E o que é mais horrível no governismo é isso: manter a governabilidade, fazer a manutenção das alianças espúrias do PT, se segurar no poder, a partir da mobilização das pautas sociais e dos grupos identitários. Encher as ruas de cartazes pela reforma agrária pra defender um governo que não realizou nada quanto a isso e nomeou Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura. Pintar as estrelas em defesa da democracia para um governo que criou a lei antiterrorismo. Gritar pelo meio ambiente para um governo que fez Belo Monte e deixou passar batido o que aconteceu em Mariana.

O problema da relação de subsunção da esquerda ao governo, o governismo, é problemática desde a existência da esquerda. Tal como é também antiga a eliminação de toda alternativa que se coloca à esquerda, mas fora das instituições cooptadas pelo poder, como aconteceu com as insurreições lideradas por Nestor Makhno no interior da Ucrânia, o Partido Solidariedade na Polônia e a Revolta de Kronstadt, todas essas experiências massacradas violentamente pelo exército vermelho na União Soviética. Como também aconteceu contra os movimentos do maio de 68, o 15-M em 2011, junho de 2013 no Brasil, como já citado, dentre outras, que foram renegadas pela esquerda tradicional.

Podemos concluir provisoriamente, portanto, que o governismo é:

  1. Um tipo de relação de subsunção da esquerda ao governo, em que a primeira (a “tática”) deve anular-se em proveito da manutenção do segundo (a “estratégia”). A reprodução do aparelho de Estado nas instituições socialistas, como citado por Foucault, cria com a centralização e verticalização descontrolada as condições para a reprodução deste mesmo erro, como já vem acontecendo na história da esquerda reiteradas vezes. Tal processo de despotencialização subjetiva da esquerda é ainda mais intensificado com o personalismo, como nos casos de Chávez e Lula;
  2. É uma relação caracterizada pela mobilização do medo como forma de chantagem permanente e esvaziamento do pensamento capaz de criar alternativas. Não havendo um projeto afirmativo capaz de mobilizar a sociedade ou já que a atuação do governo está fracassada, o governismo só se mantém possível com a mobilização do medo e da constituição de um inimigo a ser vencido e o ódio a ele (fascismo?);
  3. Por fim, é uma relação de policiamento e redução da diferença, produzindo consenso e homogeneidade, imobilizando o avanço das lutas sociais e construção de alternativas instituintes.

Sem superar essas repetições, só haverá imobilismo na esquerda. Precisamos de uma afirmação da diferença.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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TRAGTENBERG, Maurício. Reflexões sobre o socialismo. São Paulo: Moderna, 1986.